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A guerra americana na periferia da Europa

Análise · Clara Verdi A ameaça não foi feita a Paris ou a Berlim. Foi feita à Bulgária, ao Chipre.

A guerra americana na periferia da Europa
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A ameaça não foi feita a Paris ou a Berlim. Foi feita à Bulgária, ao Chipre. É aí, na periferia sudeste da Europa, que o Irã cogita atacar bases militares americanas caso Donald Trump decida escalar sua guerra particular. A escolha dos alvos é tudo. Não se trata apenas de uma questão de alcance de mísseis, mas de um cálculo político que explora as fraturas do continente e a natureza da presença militar dos Estados Unidos nele.

Bases como a de Bezmer, na Bulgária, ou a instalação britânica no Chipre, não são monumentos do poder americano fincados no coração simbólico europeu. São postos avançados, funcionais, discretos, nós de uma rede logística que serve a um império em movimento. Ameaçá-los é uma forma de dizer a Washington que seu conflito não ficará contido no Golfo Pérsico, que ele pode transbordar para os quintais de seus aliados — e não os aliados de primeira classe, mas aqueles cuja soberania é mais porosa, cuja estabilidade é mais recente.

Um teatro de operações alheio

Para o burocrata da OTAN que garante ter tudo sob controle, a ameaça é apenas mais um dado a ser processado. Para os governos em Sófia ou Nicósia, é a materialização de um pesadelo: ser arrastado para um conflito que não é seu, travado em seu solo por potências estrangeiras. A Europa — não a União Europeia, com suas diretivas e cúpulas, mas a Europa real, de carne e fronteira — se descobre de repente como um tabuleiro, um campo de batalha potencial para uma guerra decidida a milhares de quilômetros.

O alerta já havia soado em março, quando Teerã disparou mísseis contra a base de Diego Garcia, a quatro mil quilômetros. A demonstração de capacidade balística redesenhou o mapa da vulnerabilidade. O que parecia uma querela distante entre Trump e os aiatolás mostrou ter alcance para tocar as capitais do continente. Agora, a ameaça se torna específica, cirúrgica. Ela não visa a Europa como um todo, mas os seus pontos de menor resistência, onde a infraestrutura da OTAN se confunde com a paisagem e a memória da Cortina de Ferro ainda não é arqueologia.

Washington ameaça bombardear o Irã e redesenhar o direito marítimo no Estreito de Ormuz. Teerã responde mirando não o Pentágono, mas seus satélites. E a Europa? Assiste. Ou melhor, parte dela assiste, enquanto outra parte reza para que os drones e mísseis continuem a ser apenas uma hipótese em reportagens de jornais.

O que acontece quando o conflito chega não como uma invasão, mas como um acerto de contas entre terceiros no seu território?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Irã cogita atacar bases dos EUA na Europa, diz jornal

Fontes: g1 · UOL