A gramática do ataque
Análise · Clara Verdi Enquanto o mundo se preparava para a final da Copa do Mundo, um espetáculo de consumo e unidade encenada, os Estados Unidos…
Análise · Clara Verdi
Enquanto o mundo se preparava para a final da Copa do Mundo, um espetáculo de consumo e unidade encenada, os Estados Unidos atacavam um canteiro de obras no sudoeste do Irã. Não um canteiro qualquer. O alvo, em Darkhoveyn, era o embrião de uma usina nuclear, aquilo que Teerã chama de símbolo da sua “dignidade científica e autossuficiência”. A justaposição dos eventos, o jogo e a bomba, não é uma ironia do acaso; é a própria lógica de um poder que normalizou a violência como ruído de fundo, a trilha sonora inevitável para a festa dos outros.
O direito internacional proíbe ataques a instalações nucleares, operacionais ou não. A razão é simples: o risco de contaminação radiológica transcende a lógica militar, tornando-se uma ameaça existencial. A Agência Internacional de Energia Atômica, em seu comunicado burocrático, apressou-se a notar que a usina estava em estágio inicial e não continha material nuclear. É um alívio técnico, mas uma capitulação política. A nota da AIEA, com seu apelo por “moderação militar”, soa como um pedido de silêncio a quem já grita. O que se ataca em Darkhoveyn não é o átomo, ainda ausente, mas a soberania de possuí-lo. O gesto precede a matéria.
A declaração do Comando Central dos EUA, que não menciona o canteiro de obras mas admite a oitava onda consecutiva de ataques para “degradar as capacidades militares do Irã”, revela a sintaxe desta guerra. É uma guerra preventiva e perpétua, travada não contra uma agressão imediata, mas contra uma capacidade futura. Ataca-se o que poderia vir a ser, em nome de uma segurança que nunca se alcança. Do outro lado, a resposta iraniana com ofensivas em Jordânia, Kuwait e Bahrein, completa a frase, mostrando que a violência, uma vez iniciada, não obedece a fronteiras nem a memorandos de entendimento. O Irã acusa, os EUA não comentam; a verdade se torna mais uma vítima no campo de batalha.
O ataque a Darkhoveyn é a violação de um tabu. Não pelo perigo imediato, que a AIEA descartou, mas pelo que ele sinaliza: em certos conflitos, não há mais santuários. Nem os hospitais e pontes que o Irã alega terem sido atingidos, nem os símbolos de um futuro tecnológico. Tudo é alvo, tudo é degradável. O que foi bombardeado no Irã, na madrugada de domingo, foi a ideia de que a ciência, mesmo quando instrumentalizada pelo Estado, poderia ter um perímetro de segurança. Não tem. Assim como a paz, tornou-se apenas uma aspiração que se discute no intervalo do jogo.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Irã reporta ataque em canteiro de obras de usina nuclear
Fonte: Agência Brasil