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Crianças sofrem acidentes domésticos mais que na rua

Acidentes domésticos são mais frequentes que os de rua para crianças no Brasil, diz pesquisa. Entenda os riscos.

Crianças sofrem acidentes domésticos mais que na rua
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

O chão de casa e a panela no fogão são, hoje, cenários de risco mais frequentes para uma criança no Brasil do que a rua. Em 2025, quedas e queimaduras responderam, juntas, por mais de 63% das internações por acidentes de crianças e adolescentes até os 14 anos. São mais de 80 mil leitos hospitalares ocupados por eventos que, na sua esmagadora maioria, poderiam ter sido evitados. Um número frio, que esconde o grito, a sirene, a longa espera no corredor do pronto-socorro.

O dado bruto, retirado do DataSUS e compilado pelo Projeto Criança Segura, aponta para São Paulo, Minas Gerais e Paraná como os estados com o maior volume de hospitalizações. É uma conclusão intuitiva, que segue a demografia. Onde há mais gente, há mais acidentes. A epidemiologia, no entanto, nos obriga a um segundo olhar, mais incômodo. Quando ajustamos os números pela população, o mapa se inverte. A maior taxa de internação por 100 mil habitantes não está no Sudeste industrializado, mas no Pará, com 120 hospitalizações. Seguem-no Tocantins e Maranhão.

O que o mapa revela

Essa discrepância entre números absolutos e taxas relativas sugere que o risco não é uniformemente distribuído. Ele tem CEP. A queda de um apartamento em São Paulo e a queimadura numa casa no interior do Pará podem levar à mesma internação, mas nascem de contextos radicalmente distintos de moradia, acesso à informação e estrutura de cuidado. O relatório da ONG Aldeias Infantis SOS é cirúrgico em sua recomendação:

Investir em ambientes seguros, educação preventiva e fortalecimento de políticas públicas significa reduzir hospitalizações, sequelas permanentes e óbitos evitáveis.

O que os números não contam, e a minha experiência no SUS confirma, é a história por trás de cada ficha de atendimento. A intoxicação de uma criança de dois anos que encontra um produto de limpeza mal guardado fala sobre a exaustão de quem cuida. O acidente de trânsito com um adolescente de 13 anos reflete a infraestrutura de uma cidade inteira. São eventos privados com raízes profundamente públicas.

Os dados de 2025 desenham um quadro claro da nossa falha coletiva em proteger os mais vulneráveis. São mais de 10 mil crianças hospitalizadas por mês. Uma lotação de estádio de futebol a cada quatro meses. A questão que permanece, enquanto um novo registro é feito no sistema, é se estamos tratando esses acidentes como fatalidades isoladas ou como o sintoma de uma doença social que conhecemos, mas ainda não decidimos curar.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Quedas e queimaduras lideram internação de crianças em 2025

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.