A fúria breve da terra
Análise · Clara Verdi O tremor chegou às 5h58, hora local.
Análise · Clara Verdi
O tremor chegou às 5h58, hora local. Uma hora em que o sono é mais profundo, em que o corpo se entrega ao esquecimento que precede o dia. Na ilha de Flores, na Indonésia, a terra rasgou esse pacto. Um abalo de 7,7 na escala de magnitude é uma abstração numérica até que se materialize em escombros sobre corpos adormecidos, como confirmou o governador da província, Emanuel Melkiades Laka Lena. A morte chegou antes da consciência.
A sequência é um roteiro geológico implacável, conhecido de cor por quem vive sobre o Círculo de Fogo do Pacífico. Primeiro, o tremor que dura um minuto, que parece uma vida. Depois, as dezenas de réplicas, cada uma um eco da violência original. Então o alerta de tsunami, a corrida para as terras altas, o mar que recua como um animal preparando o bote. Em Maumere, o porto desabou em poeira enquanto as pessoas corriam, gritando — a cena registrada por um telemóvel é a crônica instantânea do colapso da normalidade. O alerta foi cancelado três horas depois. A fúria do mar não veio, mas a da terra bastou.
As autoridades tentam chegar a Nagekeo, a região mais próxima do epicentro, mas a própria terra se defende: deslizamentos bloqueiam as estradas. Os sinais de comunicação falham. A energia cai. O Estado moderno, com suas agências e seus protocolos de desastre, encontra seu limite na topografia alterada pela força que ele não controla. O esforço é chegar, contar os corpos, organizar os deslocados — cerca de 2 mil apenas em Nagekeo —, mas a tarefa imediata é uma luta contra a geografia.
Trinta e oito mortos. O número é provisório, como todos os números que se seguem a uma catástrofe. É um número que não transporta o peso das estruturas que cederam, das casas e armazéns tornados ruína. A Indonésia é um vasto arquipélago habituado à instabilidade sísmica, uma condição existencial para seus habitantes. A terra ali não é um palco passivo para a vida humana; é um ator principal, caprichoso e violento.
Quando a poeira assentar e as comunicações forem restabelecidas, o que restará para quem sobreviveu, além do medo da próxima vez?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil · UOL