Fumaça toma Islamabad após incêndio em hospital infantil
Quinze bebês morreram em Islamabad após um incêndio devastador atingir o hospital infantil. A tragédia levanta questões urgentes sobre segurança.
Análise · Clara Verdi
Quinze bebês morreram em Islamabad. Não em uma guerra, não por uma doença incurável, mas pelo fogo que começou em um ar-condicionado defeituoso em um hospital público. O número, seco, desembarca nas agências de notícias e quase não move o ar. A declaração do primeiro-ministro Shehbaz Sharif, com sua promessa de encontrar responsáveis e aplicar as “medidas mais rigorosas possíveis”, é a gramática previsível do poder diante do irreparável. É o roteiro que se encena sempre que a negligência do Estado produz seus cadáveres.
O que a nota oficial não diz, o que a dor protocolar do comunicado não alcança, é o padrão. A repetição. O incêndio na Ala de Saúde Materno-Infantil do Instituto Paquistanês de Ciências Médicas não é um acidente isolado, uma fatalidade cósmica. Ele se inscreve em uma longa linhagem de desastres evitáveis. Em 2012, duzentos e cinquenta operários queimaram em uma fábrica têxtil em Karachi que não tinha saídas de emergência. Em 2021, dezesseis morreram em outra fábrica. Em 2023, onze em um shopping; em janeiro deste ano, mais de sessenta e cinco em outro. A lista é uma litania da falha crônica, do código de construção que é letra morta, da fiscalização que é um teatro do absurdo.
Um hospital público sobrecarregado, com equipamentos precários, é a ponta visível de um corpo político doente. A morte de recém-nascidos em uma maternidade não é apenas uma tragédia familiar; é o colapso de uma promessa fundamental. O lugar que deveria ser o santuário da vida, o ponto de partida, torna-se a sua cova. A imagem de uma mulher aos prantos do lado de fora do prédio, enquanto um homem quebrava os vidros das janelas, contém mais verdade sobre o Paquistão do que qualquer investigação oficial que venha a ser concluída. É a imagem da impotência. Do desespero que arranca o ar.
Esta leitura, feita de longe, talvez ignore as complexidades da política local, a teia de culpas que se perde nos corredores de Islamabad. Mas a fumaça que subiu do terceiro andar daquela maternidade carrega uma mensagem universal. Fala de vidas que valem menos, de corpos cuja segurança é um luxo, de uma modernidade que chega na forma de um ar-condicionado, mas sem a estrutura que a sustenta. A investigação prometida pode, na melhor das hipóteses, identificar um culpado imediato. Um bode expiatório. Nunca alcançará o verdadeiro responsável: um sistema que se acostumou com o fogo.
Resta saber quantos incêndios mais serão necessários para que o roteiro oficial perca sua força. E para que o luto, hoje confinado às famílias das vítimas, se torne finalmente uma força política.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Incêndio em maternidade de Islamabad mata 15 bebês
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil · UOL
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.