Eleição: retrato racial das candidaturas reflete desigualdade
Candidaturas registradas no TSE revelam o cenário racial da eleição, espelhando a desigualdade social.
Análise · Beatriz Fonseca
O número é um espelho. Em 16 de agosto de 2026, as listas de candidaturas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostravam que 49,8% dos postulantes a cargos eletivos se autodeclaravam negros — pretos ou pardos. A proporção se aproxima do perfil do país, onde 55,5% da população pertence a este grupo. O dado, apurado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e pela consultoria CommonData, representa um avanço expressivo sobre os 35,5% registrados em 2022, na primeira edição do estudo. A imagem, contudo, pode ter menos nitidez do que o retrato sugere.
A estrutura que sustenta a participação política não se move na mesma velocidade. A Emenda Constitucional nº 133, aprovada em 2024, alterou a regra de distribuição de recursos. Antes dela, um partido com 50% de candidaturas negras deveria destinar a elas 50% do fundo eleitoral. Agora, mesmo com metade da lista preenchida por negros, o repasse obrigatório é de 30%. O aumento do número de candidatos, portanto, convive com uma redução potencial dos recursos que lhes são destinados. Carmela Zigoni, assessora do Inesc, aponta o paradoxo: a presença nas listas partidárias precisa ser analisada junto ao acesso efetivo a financiamento e tempo de propaganda.
Uma identidade em disputa
A composição das listas também revela movimentos internos. O mesmo levantamento identificou que 344 candidatos que se declararam brancos em eleições anteriores passaram a se identificar como negros — 338 como pardos e seis como pretos. A migração ocorre de forma quase idêntica nos campos políticos: 11,2% na direita, 11,6% no centro e 11,7% na esquerda. Uma interpretação possível é que a pauta racial, antes mais associada a um espectro, hoje se apresenta como um campo de disputa por votos em todo o sistema.
Na minha avaliação, o dado quantitativo é um ponto de partida, não de chegada. Ele descreve a forma, mas não necessariamente a substância da representação. A presença numérica pode ser uma resposta dos partidos às novas regras e a uma demanda social, sem que isso se traduza em poder real dentro das estruturas partidárias ou em mandatos efetivos. Este é um quadro ainda em formação; os resultados finais, previstos para setembro, dirão se o avanço em raça foi acompanhado por gênero.
Por ora, a fotografia parcial mostra que o grupo mais numeroso ainda é o dos homens brancos, com 32,7% das candidaturas. A pergunta que a eleição responderá não é apenas quantos rostos negros estarão na urna, mas quais deles terão as condições de chegar ao poder.
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Candidaturas negras chegam a 49,8% para Eleições 2026
Fonte: Agência Brasil