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A fortuna que virou poeira no Santos Dumont

Análise · Luciano Aragão Um homem morador de Balneário Camboriú (SC) foi preso no Aeroporto Santos Dumont, no Rio.

A fortuna que virou poeira no Santos Dumont
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Luciano Aragão

Um homem morador de Balneário Camboriú (SC) foi preso no Aeroporto Santos Dumont, no Rio. Em sua conta pessoal, a polícia encontrou R$ 77 milhões. O dinheiro apareceu ali logo depois que uma aposentada de 70 anos, no Rio Grande do Sul, perdeu os R$ 37 milhões que herdara. Ela ignorou os alertas de seu corretor, rompeu com ele e, ao longo de seis meses, transferiu todo o seu patrimônio para uma plataforma chamada TDASX. Era uma miragem. A fortuna virou poeira.

A prisão do dono de uma das instituições financeiras que operava o esquema é apenas a face visível de uma estrutura industrial. A Polícia Civil gaúcha, na Operação Criptoabate, não investiga apenas um estelionatário que encontrou uma vítima vulnerável. Investiga um ecossistema. Foram cumpridas 90 ordens judiciais em três estados. Entre os alvos, donos de financeiras, dois estrangeiros e uma gerente de um grande banco nacional, suspeita de facilitar a abertura de contas para o grupo.

A indústria do abate

O método tem nome: “pig butchering”, ou abate de porcos. O termo, importado do sudeste asiático, é preciso. A vítima é primeiro “engordada” com promessas de lucro e uma falsa relação de confiança. Depois, o abate é rápido e total. No caso gaúcho, a aposentada foi adicionada a um grupo de mensagens que simulava uma comunidade de investidores bem-sucedidos. Era um teatro montado para ela.

A escala da operação financeira assusta mais que a crueldade do golpe. As transações suspeitas monitoradas pelos investigadores somam R$ 30 bilhões. Uma única instituição financeira envolvida na fraude movimentou R$ 295 milhões em um só dia. É um volume que exige conivência ou cegueira deliberada em múltiplos pontos do sistema. Os R$ 37 milhões da herdeira foram apenas um lote em uma linha de produção. A polícia já identificou outras 140 possíveis vítimas pelo país.

Enquanto sete suspeitos seguem foragidos, a prisão no Santos Dumont expõe a anatomia de um crime que não depende mais do bilhete premiado ou do falso sequestro por telefone. Ele usa a mesma infraestrutura do mercado financeiro legítimo, coopta seus funcionários e se alimenta da mesma busca por retornos rápidos que move a economia digital. A diferença é que, no final, não há investimento. Só o abate.

Luciano Aragão, Brasília

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Suspeito de golpe de R$ 37 milhões é preso no Santos Dumont

Fontes: g1 · CNN Brasil