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A fatura do clima chega por metro quadrado

Análise · Luciano Aragão Em 1985, o Brasil tinha 79% de seu território coberto por vegetação nativa. Em 2025, terá 65%.

A fatura do clima chega por metro quadrado
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Análise · Luciano Aragão

Em 1985, o Brasil tinha 79% de seu território coberto por vegetação nativa. Em 2025, terá 65%. Os números vêm do MapBiomas, uma plataforma que não tem bancada no Congresso nem precisa negociar emendas. Mede o que há no chão. A diferença, em 41 anos, é uma perda de 111 milhões de hectares de formações florestais e savânicas, o equivalente a duas Alemanhas e uma Itália. Foi a troca da cobertura original pela agropecuária.

O dado poderia ser só mais um para o arquivo de ambientalistas, não fosse a conta que a natureza resolveu apresentar. A mesma pesquisa cruzou o mapa da devastação com o mapa dos eventos climáticos extremos. Concluiu o óbvio, que a política sistematicamente ignora: onde a floresta sumiu, a seca ou a enchente se agravaram. Onde ela ficou, o impacto foi menor. Simples assim.

O El Niño de 2023-2024, que secou a Amazônia e afogou o Pampa, serviu de laboratório. Nos dois biomas, as áreas mais castigadas foram justamente as convertidas para a produção. Na Amazônia, onde antes havia mata, a redução de chuvas chegou a 178 milímetros abaixo da média. No Pampa, o excesso de precipitação seguiu a mesma lógica. O Pantanal, por sua vez, registrou o ano mais seco de toda a série histórica.

A ironia é de manual. O setor que mais avança sobre a vegetação nativa, e que mais depende da regularidade climática para produzir, é o primeiro a sofrer as consequências de sua própria expansão. Não se trata de uma falha de governo específico, mas de um modelo de desenvolvimento que se recusa a calcular o passivo. Cada hectare desmatado é um voto de confiança no caos.

O Palácio do Planalto e o Congresso Nacional debatem metas fiscais, articulações políticas e a próxima cadeira no Supremo. A planilha do clima, contudo, não aceita emenda de plenário. A fatura já está sendo emitida, em milímetros de chuva a mais ou a menos. Resta saber quem vai pagar a conta quando o talhão não produzir.

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Vegetação nativa no Brasil encolhe 14% em 41 anos, diz MapBiomas

Fonte: Agência Brasil