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Militar aborda política em entrevista e gera debate

Militar aborda política em entrevista e gera debate que se estende para redes sociais.

Militar aborda política em entrevista e gera debate
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Beatriz Fonseca

Uma entrevista de televisão, na sexta-feira (28), se estendeu até o sábado (29) por uma rede social. O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), ao ser questionado pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli sobre o depoimento do ex-comandante da Força Aérea Brasileira, Carlos de Almeida Baptista Júnior, escolheu uma linha de desqualificação. Afirmou que o testemunho do brigadeiro sobre a trama de um golpe de Estado não era grave, pois o militar estaria "pedindo voto para Lula". A resposta do oficial da reserva veio no dia seguinte, pelo seu perfil no X. Ele classificou a declaração como "leviandade".

O episódio condensa uma tática de campanha e um problema institucional. A tática é a da invalidação do mensageiro para anular a mensagem. Ao atribuir ao ex-comandante uma filiação à campanha adversária, o candidato do PL busca deslocar o debate do mérito da acusação — a participação de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, no planejamento de uma ruptura institucional, confirmada em depoimento ao Supremo Tribunal Federal — para a suposta parcialidade de quem a fez. É um movimento conhecido em campanhas eleitorais, onde a biografia do acusador se torna o centro do argumento, e não os fatos que ele apresenta.

O problema institucional é mais profundo. O brigadeiro Baptista Júnior, assim como o general Freire Gomes, ex-comandante do Exército, representam uma parcela das Forças Armadas que, segundo seus próprios testemunhos, resistiu a pressões para aderir a um projeto autoritário. Sua palavra, prestada em um processo judicial que levou à condenação do ex-presidente, tem peso por vir de dentro do sistema. Ao serem rotulados como cabos eleitorais de um governo ao qual se opuseram em um momento crítico, sua posição como agentes de Estado é posta em xeque no debate público.

Na sua resposta, Baptista Júnior aponta a motivação que, em sua leitura, guiou a fala do candidato: "uma ferramenta para fugir da responsabilidade de respondê-la". Ele distingue a atitude entre o que seria "entendido na figura de filho" e o que se espera de "alguém que se proponha a nos presidir". A frase separa o vínculo familiar da responsabilidade do cargo pleiteado. É uma distinção que a própria campanha parece, por vezes, empenhada em apagar.

É claro que a leitura do brigadeiro sobre as intenções de Flávio Bolsonaro é apenas uma interpretação, e a dinâmica eleitoral pode alterar rapidamente o peso de cada declaração. Mas o fato central permanece. Uma pergunta sobre a integridade do processo democrático foi feita a um candidato à Presidência. A resposta não foi sobre o fato, mas sobre o homem que o testemunhou.

O que resta, ao final do ciclo de acusação e resposta, não é uma resolução. Resta a pergunta original, ainda no ar, aguardando ser abordada.

Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Ex-comandante da FAB nega fazer campanha para Lula

Fontes: g1 · UOL