Brasileiros tentam ser quem não são no espelho digital
A Serasa Experian revela que um brasileiro tenta ser quem não é a cada 5,5 segundos, destacando a complexidade da identidade digital.
Análise · Luciano Aragão
A cada 5,5 segundos, um brasileiro tenta ser quem não é. O número, frio, vem da Serasa Experian. Aponta para 2,86 milhões de tentativas de fraude de identidade barradas nos primeiros seis meses de 2026. A cifra representa um prejuízo evitado de R$ 3,77 bilhões. A questão não é o tamanho do rombo, mas o método. O velho estelionato ganhou um motor de inteligência artificial.
Na fraude clássica, o criminoso rouba os dados de uma vítima e tenta se passar por ela. É um trabalho artesanal, quase de alfaiate, ajustando a mentira a um corpo que não é o seu. Na nova versão, apelidada de “golpe do sósia”, a lógica se inverte. O fraudador parte de si mesmo. Usa a própria face como gabarito e lança mão de ferramentas de comparação facial para vasculhar bases de dados — muitas delas obtidas de forma ilícita — em busca de alguém que se pareça com ele. Encontra um sósia e, a partir daí, assume sua identidade para abrir contas e tomar crédito.
O método revela uma ironia estrutural. A tecnologia que deveria ser a muralha — o reconhecimento biométrico — tornou-se a porta de entrada. O que a Serasa Experian descreve, nas palavras de seu diretor de Autenticação e Prevenção à Fraude, Leandro Bartolassi, é uma exploração da ferramenta de segurança pelo próprio agressor. O criminoso não quebra a fechadura. Ele convence o sistema de que tem a chave original.
O crescimento de 32,9% nas tentativas de fraude em um ano sugere que a corrida armamentista entre segurança e crime pende, ao menos por ora, para quem ataca. A recomendação da empresa, de que o reconhecimento facial nunca seja a única camada de autenticação, soa menos como um conselho e mais como a admissão de uma vulnerabilidade sistêmica. É o reconhecimento de que uma fotografia, mesmo que tridimensional e validada por algoritmos, é um dado insuficiente para provar que alguém é quem diz ser. Uma leitura possível, contudo, é que a sofisticação da fraude apenas reflete o crescimento do mercado que ela explora; o que ainda não se mede é a eficácia real dos golpes que dão certo.
O mercado propõe soluções em camadas. As empresas são orientadas a cruzar a biometria com outros sinais, em busca de inconsistências. Mas quando o Estado e as corporações acumulam bases de dados biométricos cada vez maiores, quem garante a segurança do grande arquivo de rostos? O sósia encontrado pelo criminoso é alguém com nome, CPF e uma vida que, sem que ele saiba, está prestes a ser sequestrada.
Resta saber se a face, antes prova definitiva de identidade, virou apenas mais uma máscara no baile digital.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: “Golpe do sósia” usa IA para burlar biometria facial no Brasil
Fonte: Agência Brasil