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A Europa encolhe nas suas fronteiras

Análise · Clara Verdi Setenta e oito mil pessoas em uma praia de Ceuta foram o suficiente.

A Europa encolhe nas suas fronteiras
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Setenta e oito mil pessoas em uma praia de Ceuta foram o suficiente. A imagem, uma fotografia de desespero ordenado, bastou para que uma das promessas fundadoras da União Europeia se tornasse pó por um mês. Desde a meia-noite de sábado, quem voa ou navega da Itália para a Espanha encontra um policial e uma pergunta. Encontra uma fronteira. Madri responde a Roma, que antes impusera os mesmos controles a quem vinha do território espanhol, e o Acordo de Schengen, aquele pacto de um continente sem linhas internas, está suspenso entre os dois países.

O argumento é um teatro do absurdo mediterrâneo. Giorgia Meloni, em Roma, alega que os controles são para impedir que os migrantes recém-chegados a Ceuta cruzem para a Itália — como se pudessem caminhar sobre a água. Pedro Sánchez, em Madri, devolve a acusação de “argumentos espúrios” e impõe a reciprocidade, um gesto diplomático que é pouco mais que uma retaliação calculada. A troca de farpas entre o líder de esquerda e a primeira-ministra conservadora soa como o roteiro previsível de uma Europa incapaz de conjugar seus verbos no plural. A burocracia de Bruxelas financia o reforço das fronteiras externas, mas assiste ao colapso das internas. É a lógica de uma fortaleza que, sem saber quem é o inimigo, começa a trancar as portas dos próprios quartos.

O que se desfaz não é apenas a conveniência de viajar sem passaporte. É a própria ideia de um espaço comum, de um destino partilhado. A livre circulação nunca foi só sobre turismo ou negócios; era a materialização de uma superação. A superação de séculos de desconfiança mútua que se desenhavam nos mapas com linhas e postos de controle. Agora, a desconfiança volta, não por uma ameaça militar, mas pelo espectro de homens e mulheres filmados em uma praia no norte da África. A política externa da UE é terceirizada para o Marrocos; sua política interna se dissolve em um ultimato que Roma diz não aceitar, mas que ambas as capitais praticam.

A crise não está em Ceuta. Está em Madri, em Roma, no coração de um projeto que responde ao movimento de pessoas desesperadas com o pânico de se fechar em si mesmo. O gesto de mostrar o passaporte no aeroporto de Barajas a um voo vindo de Fiumicino é o sintoma. Um espasmo. A Europa afetuosa, aquela das cidades abertas e da história partilhada, encolhe. A UE, com seus mecanismos e diretivas, apenas burocratiza o medo.

Por quanto tempo um continente pode se dizer unido se suas nações reerguem muros imaginários ao primeiro sinal de pressão em suas bordas mais frágeis?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Espanha impõe controle de fronteira a viajantes da Itália por 1 mês

Fontes: g1 · BBC News Brasil