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A Europa em chamas é uma paisagem política

Análise · Clara Verdi As estradas noturnas da Gironde e de Landes, atulhadas de gente que foge do fogo, são o retrato menos lisonjeiro e mais honesto…

A Europa em chamas é uma paisagem política
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

As estradas noturnas da Gironde e de Landes, atulhadas de gente que foge do fogo, são o retrato menos lisonjeiro e mais honesto da Europa neste verão. Não é uma imagem de catástrofe natural — embora seja também isso —, mas a imagem de uma paisagem que se desfaz e, com ela, a ilusão de um continente no controle de seu próprio destino. O número, quase trezentas mil pessoas deslocadas entre a França e a Espanha, é da ordem do desastre militar. E a guerra, aqui, é contra um inimigo que não se pode bombardear: o clima que a própria Europa ajudou a desregular por dois séculos.

O que queima no sudoeste europeu não são apenas os 98 mil hectares de floresta, um recorde que já nasce velho. Queima a ideia de uma previsibilidade sazonal, a alternância de estações que por milênios definiu o trabalho, a colheita, o turismo e o descanso. A evacuação completa de Cap Ferret, refúgio burguês na costa atlântica francesa, e o cerco às vinhas de Bordeaux não são notas de rodapé; são o fogo batendo à porta da própria identidade cultural e econômica da região. Um homem morre tentando atravessar as chamas de carro perto de Valência, e sua morte individual, anônima, torna-se um símbolo coletivo da impotência.

A resposta oficial é uma coreografia conhecida. O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, fala em níveis “nunca antes vistos”. O espanhol, Pedro Sánchez, mobiliza ajuda de vizinhos como Itália e Grécia, eles mesmos veteranos calejados do combate anual contra as chamas. Aviões militares Airbus A400M, projetados para o transporte de tropas, são adaptados às pressas para despejar produtos químicos sobre as árvores. É o aparato do Estado em sua máxima força, empregando logística de guerra para uma tarefa de jardinagem em escala continental, e ainda assim a situação está “longe de ser controlada”.

Essa defasagem entre o esforço e o resultado expõe a fragilidade do projeto europeu não em seus tratados, mas em seu território. A União, tão hábil em regular a curvatura da banana e as emissões de carbono em planilhas de Excel, parece paralisada quando a abstração da “mudança climática” se materializa em fumaça densa que invade as casas em Sainte-Hélène e obriga o Tour de France a desviar sua rota. Para as famílias que aguardam em abrigos, a pergunta sobre quando poderão voltar para casa é também uma pergunta sobre para qual casa, e para qual futuro, elas poderão voltar.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Incêndios na França e Espanha deslocam 280 mil pessoas

Fontes: g1 · CNN Brasil