CBAt avalia caminho de terra para atletas brasileiros no Senegal
A Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) estuda uma peculiar rota de terra no Senegal para a preparação de atletas nacionais.
Análise · Marcos Tibúrcio
Dakar, Senegal. Lá onde o Atlântico se encontra com a África, é para onde a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) mira o destino de sete jovens, futuros do esporte que muitos só veem a cada quatro anos. Dois desses sete saem de Mato Grosso do Sul, de Ponta Porã, cidade que não tem a tradição olímpica de São Paulo ou a estrutura de Minas Gerais. É uma aposta na terra, na semente que ainda brota sem a adubação dos grandes centros.
Kevin Tobias Aguero, com seus 17 anos, é a face mais visível dessa aposta. Ele não vem de uma pista com piso emborrachado de última geração, mas de um clube que faz do esporte um projeto de vida, como indica o nome da Associação Pontaporanense Esporte e Vida (APEV). O menino já cravou seu nome na história, recordista sul-americano sub-18 nos 400 metros com barreiras, baixando o tempo que durava desde 2014. Não é pouca coisa para quem vem de tão longe. Ao lado dele, José Antônio Escobar de Almeida, no lançamento do martelo, e o técnico Fredy Salomão Miranda, que com certeza conhece o chão batido dos treinos tanto quanto os calçamentos das cidades grandes.
O que a CBAt faz, ao convocar não só talentos individuais, mas um núcleo inteiro de Ponta Porã, é reconhecer que o atletismo brasileiro não está só nas grandes cidades. Está na fronteira, nas escolas, nos pátios de terra onde a garotada ainda corre por instinto. É um aceno para o Brasil profundo, para os locais onde a infraestrutura é escassa, mas a paixão e o talento sobram. Wlamir Motta Campos, presidente da CBAt, fala em "crescimento do atletismo em todo o Brasil". E Ponta Porã é a prova cabal de que esse crescimento não é apenas vertical, mas horizontal, capilar, chegando onde poucos olhariam.
Dakar é, para esses meninos, mais que uma competição. É a chance de mostrar que o Brasil é grande em todas as suas pontas. Que o esporte pode ser uma ponte entre mundos, um atalho para um futuro que, de outra forma, talvez demorasse a chegar. A convocação, baseada em ranking, fala em meritocracia, mas a presença desses nomes de Mato Grosso do Sul fala em garra, em superação das barreiras que não são de pista, mas da vida.
Contudo, a atenção a esses centros menores, por mais louvável que seja, levanta uma pergunta que ecoa no vento: esses atletas encontrarão, ao retornar, as mesmas condições para continuar o desenvolvimento que os levou ao Senegal? Ou o brilho de Dakar será um ponto alto, mas isolado, em suas trajetórias?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge