A estabilidade dos blocos e a ausência de um centro
Análise · Beatriz Fonseca Os números apresentados pela pesquisa do instituto Nexus, encomendada pelo banco BTG Pactual e divulgada nesta…
Análise · Beatriz Fonseca
Os números apresentados pela pesquisa do instituto Nexus, encomendada pelo banco BTG Pactual e divulgada nesta segunda-feira (17), desenham menos uma fotografia do instante e mais um mapa das estruturas que organizam a política brasileira. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) mantêm-se em empate técnico numa simulação de segundo turno, com 47% e 44% das intenções de voto, respectivamente. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais.
A repetição exata dos índices da rodada anterior, de 10 de agosto, indica uma notável resiliência dos dois principais campos políticos do país. No primeiro turno, a distância de cinco pontos percentuais entre ambos também se manteve, com Lula oscilando de 40% para 41% e o senador, de 35% para 36%. Os blocos parecem consolidados, com pouca permeabilidade entre si. Cada um detém um capital político que, no momento, se mostra intransferível e imune a pequenas variações conjunturais.
Na minha avaliação, o dado mais relevante não é o empate em si, mas o que ele revela sobre o espaço político restante. Quando o presidente é confrontado com outros nomes do campo à direita, o cenário de disputa acirrada se repete. Contra Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, o placar é de 45% a 42%, outro empate técnico. Contra Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais, a vantagem do presidente é de 46% a 41%, numericamente fora da margem de erro, mas ainda indicativa de uma competição renhida.
Essas simulações sugerem que o eleitorado não está, primariamente, avaliando as qualidades individuais de Flávio Bolsonaro, Caiado ou Zema. Está, antes, medindo a força de um campo político unificado por oposição ao Partido dos Trabalhadores. O nome que ocupa essa posição parece herdar, quase automaticamente, um patamar de votos que o torna competitivo contra o presidente em exercício. O eleitorado se organiza por rejeição antes de se organizar por adesão. É um comportamento político que se solidificou ao longo da última década.
O resultado é um quadro de estabilidade alta, quase estagnação, onde os candidatos de outros espectros — como Renan Santos (Missão), que marca 36% contra 47% de Lula — não conseguem romper a barreira dos dois polos. Para os articuladores políticos em Brasília, os números do BTG/Nexus funcionam como um lembrete institucional: a eleição não se joga mais em um terreno com múltiplas vias, mas em uma planície dividida por uma única e profunda trincheira.
A questão que se impõe, portanto, não é sobre quem poderá vencer a eleição, mas sobre como será possível governar um país onde quase metade do eleitorado se alinha a um projeto e a outra metade, a seu oposto simétrico.
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Lula e Flávio Bolsonaro empatam em 2º turno, diz BTG/Nexus
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil