Escócia enfrenta Brasil em decisão da Copa
Análise de Marcos Tibúrcio sobre o confronto entre Escócia e Brasil no torneio e sua relevância.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma certa crueldade poética no calendário desta Copa. A Escócia, seleção que carregou por décadas o estigma de nunca vencer uma fase de grupos em Mundial, chega aos Estados Unidos com a disposição de quem não tem mais nada a perder — e é exatamente esse o tipo de adversário que mais dói. O zagueiro escocês que declarou estar "extremamente ansioso" para enfrentar o Brasil não estava sendo gentil. Estava sendo honesto. E a honestidade, no futebol, costuma anteceder o perigo.
A frase que ele soltou — "se você perguntar a alguém na rua uma memória de Copa do Mundo, provavelmente será uma que envolve o Brasil" — merece ser lida com mais cuidado do que o entusiasmo superficial deixa. Não é reverência. É diagnóstico. A Escócia sabe que jogar contra o Brasil não é uma partida, é uma circunstância histórica. E circunstâncias históricas mobilizam jogadores de maneira que a tática não alcança.
O Brasil tem o peso do próprio nome. Isso já custou caro antes. Quando você é o ícone, quando a memória coletiva do torneio passa pelo seu uniforme, pela sua história, pelo peso de cada número nas costas, o adversário entra em campo com uma energia que beira o irracional. A Escócia não vai a campo para perder de forma decorosa. Vai para ter a sua própria memória de Copa — e o Brasil é o palco perfeito para isso.
"É um ícone em Copa", disse o zagueiro escocês. A palavra ícone carrega admiração, sim. Mas também carrega alvo.
Do lado brasileiro, a questão que se impõe não é técnica — é de temperatura. Uma seleção que entra em campo convicta de que o adversário já se rende ao seu prestígio está, na prática, jogando com um homem a menos. O futebol desta Copa, até aqui, tem mostrado que a hierarquia do papel não sobrevive ao calor dos gramados americanos. Seleções menores chegam organizadas, físicas e sem complexo. A Escócia, em particular, tem uma tradição defensiva que não nasce de limitação técnica — nasce de identidade.
A ansiedade declarada pelo zagueiro escocês é, ela própria, um dado tático. Times que querem o jogo pressionam. Times que pressionam tiram o Brasil do ritmo que o Brasil gosta. E o Brasil, quando tirado do ritmo, às vezes demora um tempo longo demais para se reencontrar.
O confronto ainda vai acontecer. Mas ele já começou — lá na entrevista, no corredor, na frase do zagueiro que disse estar ansioso. Na arquibancada, quando duas seleções se encontram em Copa do Mundo, o resultado já começa a ser escrito antes do apito. A Escócia escreveu a primeira linha. Falta saber se o Brasil vai ler.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge