A doença adulta na infância
Análise · Dra. Camila Torres Há um imaginário médico que confina certas doenças à maturidade.
Análise · Dra. Camila Torres
Há um imaginário médico que confina certas doenças à maturidade. O lúpus eritematoso sistêmico (LES) e a esclerose múltipla (EM) pertencem a essa categoria: condições crônicas, autoimunes, que costumamos associar ao início da vida adulta, em geral a mulheres entre 20 e 45 anos. A realidade, porém, não respeita convenções. Quando o sistema imune se desregula e ataca o próprio corpo antes dos 18 anos, a doença costuma ser mais agressiva e o arsenal terapêutico, mais restrito. Uma decisão da Anvisa, publicada nesta segunda-feira, começa a corrigir essa lacuna.
A agência aprovou o uso pediátrico de dois anticorpos monoclonais. O primeiro, Benlysta (belimumabe), passa a ser indicado como terapia complementar para crianças a partir de 5 anos com lúpus ativo. Não é uma primeira linha de tratamento, mas uma ferramenta para pacientes que não respondem à terapia padrão, como corticosteroides e antimaláricos. A aprovação abrange uma caneta autoinjetora, um detalhe que transforma a rotina. Para uma criança com uma doença que pode afetar pele, rins e cérebro, a possibilidade de fazer o tratamento em casa, longe do ambiente hospitalar de uma infusão venosa, representa uma pequena normalidade reconquistada. É a diferença entre ser apenas um paciente e continuar a ser uma criança.
O segundo medicamento, Ocrevus (ocrelizumabe), foi aprovado para adolescentes a partir de 12 anos e 40 quilos com esclerose múltipla remitente-recorrente (EMRR). Nesta doença, o sistema imunológico ataca a bainha de mielina, a camada que protege as fibras nervosas, prejudicando a comunicação entre o cérebro e o corpo. A forma pediátrica é rara, mas grave. Os surtos de sintomas neurológicos, seguidos de recuperação parcial, impõem um fardo físico e psicológico imenso a quem mal começou a vida. Ter acesso a um tratamento desenhado para reduzir a atividade inflamatória associada à doença é mais do que paliativo; é uma tentativa de preservar o futuro neurológico.
A aprovação regulatória de um medicamento é um ato burocrático, uma publicação no Diário Oficial. Mas, para as famílias que enfrentam o diagnóstico de uma doença crônica na infância, o gesto tem outro peso. Representa o reconhecimento de que seus filhos existem nas estatísticas e na pesquisa clínica. E sinaliza que a medicina, ainda que lentamente, está se movendo para oferecer a eles não apenas um tratamento, mas um horizonte de vida com mais autonomia e menos interrupções.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Anvisa aprova novos usos de remédios para lúpus e esclerose
Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.