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A democracia contada em dólares

Análise · Beatriz Fonseca A representação política, em tese, espelha a sociedade que a elege.

A democracia contada em dólares
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Análise · Beatriz Fonseca

A representação política, em tese, espelha a sociedade que a elege. A tese desmorona diante de um número: um indivíduo super-rico tem uma probabilidade 4.000 vezes maior de ocupar um cargo político do que um cidadão comum. O dado, de um estudo da Oxfam internacional chamado Resistindo ao Domínio dos Ricos, é a medida de uma distorção. A democracia brasileira opera sob a mesma lógica, segundo o relatório Um Retrato das Desigualdades Brasileiras, publicado pela Oxfam Brasil nesta quarta-feira, 19 de agosto.

O argumento central do documento não é apenas que a riqueza se concentra, mas que essa concentração produz um efeito político direto: ela captura a própria democracia. Segundo a organização, a presença desproporcional de indivíduos de alta renda nos espaços de poder resulta em legislações e regulações que favorecem a manutenção de seus privilégios. A engrenagem, de acordo com os pesquisadores, não é acidental. Ela se alimenta de uma formação histórica de concentração fundiária e da capacidade das elites de se reorganizarem a cada ciclo de modernização.

O poder de veto do capital

O que a Oxfam descreve é um sistema onde o poder econômico confere, na prática, poder de veto sobre políticas públicas. A disputa pela destinação de recursos comuns deixa de ser um debate entre projetos de sociedade e passa a ser uma negociação onde a balança pende para quem já detém o capital. O sistema eleitoral, desenhado para ser igualitário, falha em sua tentativa. A desigualdade consolida-se como um projeto de poder.

O quadro brasileiro é parte de um fenômeno global. O World Inequality Report 2026 aponta que os 10% mais ricos do mundo ganham mais do que os outros 90% somados. No Brasil, quarto país em desigualdade patrimonial segundo o Global Wealth Report 2026 do banco UBS, o diagnóstico da Oxfam ganha contornos mais nítidos. É um país com 386 mil milionários em dólar no fim de 2025, cuja representação política se afasta cada vez mais da composição social da maioria.

Na minha avaliação, o relatório oferece um léxico para um problema que as campanhas eleitorais costumam tratar de forma superficial. Ele desloca o debate da mera disparidade de renda para a sua consequência mais profunda: a asfixia da deliberação pública. Resta saber, no entanto, se esta leitura sobre a captura do Estado ecoará em um ciclo eleitoral que depende, ele mesmo, de grandes volumes de recursos para existir.

Uma democracia funciona quando o poder de um cidadão não é medido pelo saldo de sua conta bancária. O que acontece quando o acesso ao poder passa a ter um preço?

Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Ricos na política ampliam desigualdade, diz relatório Oxfam

Fonte: Agência Brasil