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A dança dos indesejados

Análise · Clara Verdi Em um balé diplomático de um cinismo quase teatral, o genro do presidente americano senta-se com o novo líder do Hamas no Egito…

A dança dos indesejados
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Em um balé diplomático de um cinismo quase teatral, o genro do presidente americano senta-se com o novo líder do Hamas no Egito e, no dia seguinte, com o primeiro-ministro de Israel. A dança de Jared Kushner entre El Alamein e Jerusalém não é sobre a paz, essa palavra gasta. É sobre a imposição de uma ordem onde os atores principais já não se suportam nem se reconhecem, mas são forçados a ensaiar os mesmos passos sob a luz dura dos holofotes americanos.

O roteiro parece simples: um plano de quinze pontos, saudado por Donald Trump com a fanfarra habitual, busca transformar o cessar-fogo em "medidas concretas e verificáveis". O desarmamento do Hamas é o ato central. A retirada das forças israelenses, a contrapartida. O Hamas, em uma inversão de papéis que faria sorrir um dramaturgo do absurdo, aceita sob a condição de que o outro lado cumpra sua parte. Benjamin Netanyahu, por sua vez, recusa publicamente. O plano não lhe serve. A paz americana não lhe serve.

Aqui reside a fratura. A rejeição de Netanyahu não é um capricho tático, mas a afirmação de uma soberania que se sente sitiada não apenas por seus inimigos declarados, mas também por seus aliados históricos. Ele joga sua própria partida, e as regras não vêm de Washington. Ao dizer não a Trump, diz não a uma tutela que se tornou inconveniente, a uma solução externa para uma ferida que ele prefere administrar a curar. A condenação conjunta de Egito, Catar e outras nações árabes apenas sublinha o isolamento de Israel, transformando-o, na narrativa regional, no único obstáculo ao fim do conflito. É precisamente o papel que Netanyahu parece mais confortável em desempenhar.

A imagem que fica não é a de um enviado construindo pontes, mas a de um corretor tentando fechar um negócio entre partes que desprezam o contrato. Kushner fala em "medidas concretas", mas o terreno em que pisa é feito de areia e memória. Cada aperto de mão é um cálculo, cada declaração, uma arma. Netanyahu não recuará, ele avisa, até que o Hamas esteja desarmado. O Hamas não se desarmará, responde, até que os ataques cessem e os soldados se retirem. É um diálogo de surdos perfeitamente coreografado.

E enquanto a diplomacia encena seu espetáculo, qual paz exatamente se está vendendo para os habitantes de Gaza?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Enviado de Trump se reúne com Netanyahu para plano de Gaza

Fontes: CNN Brasil · UOL