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Paradoxo mantém filas para transplante de córnea, apesar da abundância

No Brasil, a espera por um transplante de córnea é de 370 dias, apesar da alta disponibilidade de tecidos para doação.

Paradoxo mantém filas para transplante de córnea, apesar da abundância
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

Uma pessoa que hoje precisa de um transplante de córnea no Brasil espera, em média, 370 dias. Dez anos atrás, a mesma espera durava 174 dias. O dobro do tempo para ver o mundo com nitidez. Esse número, isolado, sugere um sistema em colapso. Mas o quadro é mais complexo. Em 2025, o país realizou 17.790 cirurgias do tipo, um marco histórico. O sistema de captação e transplante nunca foi tão eficiente. E, no entanto, a fila nunca foi tão grande.

O paradoxo está aí: o Sistema Nacional de Transplantes opera próximo à sua autossuficiência teórica, mas a demanda por novas cirurgias avança em um ritmo mais veloz. Entre dezembro de 2025 e hoje, a lista de espera saltou de 32.639 para 37.719 pacientes. Um crescimento de 24% em seis meses. É uma corrida em que a linha de chegada se afasta a cada passo, impulsionada por um passivo de pacientes represados durante a pandemia e por novas indicações médicas que superam a capacidade de atendimento.

A explicação não está na falta de doadores ou na perícia dos cirurgiões, mas na engrenagem que conecta um ao outro: os bancos de olhos. O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) aponta para uma conta que não fecha. Os insumos para manutenção e processamento dos tecidos são cotados em dólar. As exigências de gestão de qualidade, corretamente, aumentaram. O valor pago pelo procedimento, contudo, permanece o mesmo de uma década atrás. É a crônica de um subfinanciamento que asfixia a logística no exato momento em que ela mais precisa de fôlego.

Essa asfixia não é homogênea. O Brasil, como sempre, contém vários Brasis. No Ceará, a alta rotatividade do sistema fez com que o estado encerrasse 2025 com apenas 93 pacientes na fila, mesmo com 1.639 novos ingressos no ano. No Rio de Janeiro, o cenário é inverso: 653 transplantes foram realizados, enquanto 1.720 pessoas entraram na lista. O saldo acumulado ao fim do período era de 4.760 pacientes. A diferença não é cultural, é de gestão. A biologia da córnea é a mesma no Ceará e no Rio. A política de saúde pública, não.

A questão que se impõe, portanto, é menos sobre a capacidade técnica e mais sobre a sustentabilidade do modelo. O sucesso de estados como Ceará e Mato Grosso mostra que a agilidade é possível, mas a fragilidade econômica dos bancos de olhos em nível nacional indica um ponto de ruptura sistêmico. Não se trata de uma falha isolada, mas do sintoma de um sistema de saúde que celebra seus recordes de procedimentos sem garantir a saúde financeira de suas estruturas fundamentais.

Fica a pergunta de quem já viu de perto o alívio no rosto de um paciente que volta a enxergar: até quando a excelência de alguns centros conseguirá compensar as brechas que se alargam no resto do país?

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Fila por transplante de córnea cresce 24% em seis meses

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.