A Copa do Mundo que o Recife não vai ver
Análise · Marcos Tibúrcio Sete jogos. A Fifa, de sua sede na Suíça, despachou para a Arena de Pernambuco sete partidas da Copa do Mundo Feminina…
Análise · Marcos Tibúrcio
Sete jogos. A Fifa, de sua sede na Suíça, despachou para a Arena de Pernambuco sete partidas da Copa do Mundo Feminina de 2027. Seis confrontos da primeira fase e uma oitava de final. O anúncio soa como prestígio, um carimbo de relevância no mapa do futebol. Mas a arquibancada, que conhece o sol e a distância de São Lourenço da Mata, sabe ler o que não está no papel timbrado: o Brasil não jogará ali.
A Seleção, cabeça de chave do Grupo A, fará sua peregrinação por outras praças. No Recife, o palco será montado para estrangeiros. Desfilarão ali as seleções dos grupos B, D, E, F e G. Um jogo do Grupo A também, mas sem a camisa amarela. É a festa na casa do vizinho, com a família trancada no quarto. Um evento global, mas sem o tempero local que transforma cimento em caldeirão. Fica a pergunta: para quem é a Copa?
Um estádio de Copa do Mundo, erguido para 2014, tem vocação para o espetáculo. Mas sua alma vem de quem o ocupa no dia a dia. Em 2026, quem dá vida à arena é o Santa Cruz. É a torcida coral, acostumada a dramas bem mais terrenos que uma disputa de oitavas de final entre, digamos, a Dinamarca e a Coreia do Sul, que conhece cada corredor e cada eco daquele lugar. A ironia é que, para receber o mundo, o estádio precisará se esvaziar de si mesmo.
A decisão da Fifa não é, claro, um castigo. É logística, distribuição, o mapa de um torneio continental. Talvez até um acerto, se o objetivo for apenas espalhar as delegações. Mas o futebol não é um congresso de geografia. É pertencimento. Em 2014, o Recife parou para ver a Costa do Marfim, o Japão, a Croácia. Ferveu. Mas o que fez a cidade transbordar foi a certeza de que a festa, em algum momento, seria sua. A promessa de ver os seus em campo.
Agora, a promessa é outra. É a de ser um anfitrião impecável para uma celebração alheia. Resta saber se o torcedor pernambucano, que aprendeu a amar o futebol nos Aflitos e no Arruda antes de ser apresentado a um estádio padrão Fifa, terá o mesmo apetite para uma Copa do Mundo servida como prato estrangeiro. Ou se, no fim das contas, a maior torcida da Arena Pernambuco em julho de 2027 será a da cadeira vazia.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge