A Copa do Mundo que Minas Gerais não jogou
Análise · Marcos Tibúrcio Havia um Brasil jogando a Copa do Mundo.
Análise · Marcos Tibúrcio
Havia um Brasil jogando a Copa do Mundo. Havia outro, o dos clubes, em jejum forçado, remoendo tabelas, olhando para o vestiário com desconfiança. Quando o Mundial nos Estados Unidos acabou e a bola voltou a rolar por aqui, algo mudou o mapa do futebol brasileiro. O eixo de poder, antes fincado na Paulista ou esparramado pela orla do Rio, subiu a serra. Em Minas Gerais, Atlético e Cruzeiro não voltaram da pausa. Voltaram de uma pré-temporada particular, enquanto o resto do país parecia sofrer de ressaca.
Os números são o esqueleto do fato. O Atlético, invicto, venceu três de quatro jogos fora de casa — um deles contra o líder Palmeiras, no quintal do adversário. O Cruzeiro, com um jogo a mais, tem desempenho quase idêntico. A ponto de poupar titulares contra o Corinthians, em Itaquera, e ainda assim sair com a vitória. A carne, porém, está no que isso significa. Não é um acidente estatístico. É um testamento.
A lição da montanha
Enquanto o São Paulo tropeça nos próprios pés, sem uma vitória sequer desde a Copa, e potências como Grêmio e Flamengo oscilam, os mineiros impõem um ritmo que parece vir de outro campeonato. Os técnicos, o argentino Eduardo Domínguez e o português Artur Jorge, encontraram nos seus elencos a resposta que os outros ainda procuram. Eles transformaram o hiato do calendário em laboratório. O resto tratou como férias.
Em Belo Horizonte, a conversa que se ouve da arquibancada do Mineirão ou do Independência já não é sobre a matemática para fugir do rebaixamento ou beliscar uma vaga na Sul-Americana. A pergunta é outra, mais ambiciosa, sussurrada com um misto de esperança e cautela. É a pergunta que se faz quando um time deixa de ser coadjuvante e passa a ditar a peça. Quando ele entende que a força não vem apenas do dinheiro que entra, mas da convicção que sobe do túnel.
A Copa do Mundo de 2026 serviu a muitos como vitrine, a outros como distração. Para Atlético e Cruzeiro, foi o silêncio necessário para afiar a faca. Agora, com o campeonato afunilando, eles cobram a conta da displicência alheia. Quantos ainda vão pagar por não terem percebido que, enquanto o mundo olhava para a América do Norte, a verdadeira revolução acontecia em silêncio, nas montanhas de Minas?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge