A Copa do Mundo que esqueceu de ter uma casa
O futebol já teve muitas moradas — análise de Marcos Tibúrcio.
Análise · Marcos Tibúrcio
O futebol já teve muitas moradas. Teve a Jules Rimet, deusa pagã que viajou o mundo em malas e foi roubada em um arranha-céu do Rio. Teve o Centenário de Montevidéu, um coliseu de cimento erguido sobre a nostalgia. Teve Wembley, Maracanã, Azteca — templos onde o tempo parava e a geografia era apenas um detalhe no ingresso. O que a Fifa nos apresenta para 2030, no entanto, não é uma morada. É um roteiro de voo, um itinerário de executivo, uma Copa do Mundo com seis certidões de nascimento e alma de aeroporto.
A ideia, no papel timbrado de Zurique, soa como um soneto. Homenagear o centenário do torneio, começando a festa no Uruguai, onde tudo nasceu. Dar um aceno à Argentina, a rival da primeira final. Incluir o Paraguai, sede da Conmebol, a única confederação que existia quando o futebol ainda era uma aventura de bigodes e brios. É a diplomacia da bola, a história contada em três pontapés iniciais. Depois, a caravana cruza o Atlântico para a Copa “de verdade”, dividida entre Espanha, Portugal e Marrocos. Uma celebração global, dizem eles.
Mas uma Copa do Mundo não é uma conferência da ONU. Não é uma rede de franquias que abre sucursais em três continentes. A força de um Mundial está em sua capacidade de transformar um lugar. De dar a um país, por trinta dias, a condição de centro do universo. O mundo inteiro aprende a cantar o hino da casa, descobre o nome das ruas, adota um sotaque. Em 2030, qual será o sotaque? O portunhol da fronteira, o árabe com vista para o Estreito de Gibraltar, o castelhano que já sonha com a taça?
A justificativa histórica é apenas o pretexto para um modelo de negócio. Uma Copa repartida em seis fatias mitiga os custos faraônicos, agrada a mais cartolas e multiplica os mercados. É a lógica que expandiu o torneio para 48 seleções em 2026 e que já faz o presidente da Fifa, Gianni Infantino, flertar abertamente com 64. O futebol como planilha, o mapa-múndi como um tabuleiro de War. Vende-se a alma para comprar o mundo.
Uruguai, Argentina e Paraguai receberão uma partida cada. Uma migalha de nostalgia. Jogarão em casa uma vez, para depois fazerem as malas como qualquer outra seleção visitante. É uma homenagem que soa a esmola. A verdadeira festa, o drama dos mata-matas, a glória da final, tudo isso pertencerá a outro hemisfério. A Copa de 1930 foi um ato de coragem de um país que se fez continente. A de 2030 será um evento que, de tão espalhado, corre o risco de não pertencer a lugar nenhum.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil