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A Copa do Mundo ainda mora na sala de estar

Análise · Marcos Tibúrcio Os números chegaram à mesa como um boletim médico, frios e irrefutáveis.

A Copa do Mundo ainda mora na sala de estar
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Os números chegaram à mesa como um boletim médico, frios e irrefutáveis. Na Copa do Mundo de 2026, 142,7 milhões de brasileiros foram tocados, em algum momento, pela transmissão da Globo. O número, por si só, é uma enormidade — é uma nação inteira, com folga, sentada no mesmo sofá imaginário. Mas não é ele que conta a história. A história está no que o número esconde: o velho hábito, a força de um ritual que se recusa a morrer.

Disseram que o futuro era fragmentado, que cada um veria o seu jogo, no seu aparelho, no seu tempo. Que a grande fogueira em torno da qual o país se reunia a cada quatro anos havia se espalhado em inúmeras brasas, cada qual com seu dono. E, de fato, a audiência média por partida caiu. Pudera. Com metade dos jogos do Mundial entregues a outros senhores, era inevitável que o povo se dispersasse. O que não se previa é que, na hora da verdade, o caminho de volta para casa seria o mesmo de sempre.

O Brasil entrou em campo cinco vezes nesta Copa. Contra a Escócia, na estreia, mais de 53 milhões de almas sintonizaram no mesmo canal. Na eliminação para a Noruega, um drama assistido por 48 milhões de compatriotas. A audiência, aqui, não é uma planilha de mercado. É o termômetro da agonia e da esperança coletivas. E esse termômetro ainda aponta para a televisão aberta, para a voz que se acostumou a embalar as manhãs e tardes de junho e julho.

O mais revelador, porém, é o detalhe que a frieza das estatísticas quase disfarça. A emissora transmitiu metade dos jogos, mas concentrou mais do que o dobro das horas assistidas em relação ao concorrente de streaming, que exibiu todos. A matemática é simples e brutal. Onde havia um jogo decisivo, onde a camisa amarela (ou azul) estava em campo, onde a taça estava em jogo, o brasileiro não quis saber de novas tecnologias. Ele quis a certeza. Quis a sala de estar, o vizinho gritando na janela, a narração que seus pais e avós ouviram.

Espanha e Argentina fizeram uma final de gigantes, um jogo tenso no MetLife Stadium. No Brasil, 46,4 milhões de pessoas o assistiram como se fosse seu. O futebol, quando importa, ainda é um evento de massa, e a massa tem endereço fixo. A Copa do Mundo, para o brasileiro, não é apenas um torneio. É uma herança, uma memória afetiva que se renova. E, em 2026, ficou claro que essa herança ainda não está à venda. Ela mora na sala, e não parece ter qualquer intenção de se mudar.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Globo alcançou 142,7 milhões de pessoas na Copa de 2026

Fonte: ge