A contagem silenciosa da geleira
Análise · Rafael Tokyo Dezessete corpos descem o rio em Uttar Pradesh, na Índia. As autoridades os recuperam, tentam dar-lhes nome.
Análise · Rafael Tokyo
Dezessete corpos descem o rio em Uttar Pradesh, na Índia. As autoridades os recuperam, tentam dar-lhes nome. Ainda não entram na contabilidade oficial, mas já fazem parte dela. São a franja de uma tragédia que começou muito acima, na fronteira entre Nepal e China, onde uma geleira colapsou e liberou uma onda de água, gelo e pedra.
O número de mortos confirmados passou de mil. Noventa e oito por cento deles no lado nepalês, o resto no Tibete. A contagem, porém, é um exercício provisório. É o outro número que define a escala do que aconteceu na semana passada: 4.462 desaparecidos. Pessoas cujos nomes estão em listas de embaixadas, de departamentos de turismo, de famílias que aguardam uma notícia que talvez nunca venha. Uma cidade pequena, engolida pela montanha.
As listas de nacionalidades são um mapa mundi do luto. Mais de trezentos indianos, entre cidadãos e pessoas de origem indiana. Oitenta e cinco americanos. Sessenta e dois ucranianos, cinquenta e um malaios, quarenta e dois australianos. Números que representam rotas de peregrinação, trilhas de trekking, vidas que buscaram o Himalaia e ali se interromperam. O colapso da geleira não devastou apenas vilarejos. Devastou passaportes.
A montanha responde
O primeiro-ministro nepalês, Balendra Shah, foi direto: não foi um evento comum. Foi um evento climático. A ciência corrobora, sem precisar da política. O Himalaia, a grande cordilheira, descongela mais rápido que outras partes do globo. A causa exata do colapso desta geleira específica ainda pode ser incerta, mas a direção do fenômeno não é. Cada temporada de monções, cada verão mais quente, adiciona pressão a um sistema que perde seu equilíbrio.
As montanhas se tornam imprevisíveis. Não por fúria, mas por física. O que antes era gelo sólido agora é água instável, represada por barreiras cada vez mais frágeis. A avalanche não foi um ataque, foi uma resposta. Um efeito colateral das temperaturas que sobem nos centros urbanos de onde vieram muitos dos estrangeiros agora desaparecidos.
Resta o trabalho lento e terrível da identificação. Os corpos que chegam pela correnteza, as listas que se recusam a diminuir. A contabilidade da catástrofe, feita por homens, será sempre um rascunho imperfeito do que a montanha desfez em minutos.
E quando a última embaixada fechar sua lista, o que restará? Apenas o silêncio no alto da cordilheira e o novo traçado do rio.
Rafael Tokyo — Ásia. Xaplin.
Leia o factual: Mais de mil mortos em avalanche na fronteira Nepal-China
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL