A contagem dos corpos e o silêncio da terra
Análise · Clara Verdi Há uma aritmética cruel no rescaldo de toda catástrofe.
Análise · Clara Verdi
Há uma aritmética cruel no rescaldo de toda catástrofe. Primeiro, a escala Richter, um número abstrato — 7,4 — que tenta medir o indecifrável. Depois, a contagem dos corpos, que na Colômbia chegou a 281 na última noite. É o número que a burocracia precisa para organizar a ajuda, para despachar os cinco milhões de dólares das Nações Unidas, para justificar a transição semântica da busca pelo resgate à simples remoção de escombros. Uma transição que sempre acontece depois da marca de 72 horas, a janela de tempo que a ciência concede à esperança.
Passada essa janela, como agora, no quinto dia, a tragédia deixa de ser um drama de indivíduos para se tornar uma questão de logística. O que se ouve das autoridades, como David Tamayo da Unidade Nacional para a Gestão de Riscos de Desastres, é o discurso da gestão. A probabilidade diminui, a missão continua. As palavras servem para preencher o silêncio que os escombros de Pereira e Cali impõem, o silêncio que se instala quando os gritos cessam e a maquinaria pesada começa a trabalhar. O que resta não é mais uma busca pela vida, mas uma busca pelo nome, pela identificação, pelo fechamento de uma lista que começou com 379 desaparecidos.
Lembro-me do terremoto de L'Aquila, em 2009. A Itália, que sabe tanto de ruínas antigas, aprendeu naquele abril a anatomia da ruína moderna. Lá, como na Colômbia agora, a presença de equipes internacionais foi celebrada como um triunfo da solidariedade. Mas a solidariedade, por mais genuína que seja, opera dentro da mesma lógica fria do relógio. A terra que treme não tem pátria nem ideologia. A dor que se segue, tampouco.
O que se perde, quando as câmeras se afastam e os números são atualizados pela última vez, é a dimensão do que foi quebrado. Não apenas as 10.677 casas, mas a confiança na solidez do chão. O presidente Abelardo de la Espriella fala em “situação complexa”, um eufemismo técnico para o caos, para o luto, para a espera insuportável de quem não sabe se seu nome está na lista dos mortos ou dos vivos.
A terra, agora quieta, já disse o que tinha a dizer. Resta aos homens a tarefa inglória de contar suas perdas. E perguntar, de novo, o que se constrói sobre um solo que guarda a memória do próprio colapso.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: CNN Brasil · UOL