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A contabilidade precária dos corpos

Análise · Clara Verdi Duzentos e sessenta e cinco mortos.

A contabilidade precária dos corpos
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Duzentos e sessenta e cinco mortos. O número é seco, oficial, pronunciado pelo presidente colombiano Abelardo de la Espriella como quem fecha um balanço contábil da catástrofe. Mas antes dele, outros números se sucederam com a velocidade de réplicas sísmicas: 233, depois 240, enquanto as prefeituras revisavam suas próprias listas de perdas. A aritmética do desastre é sempre provisória. Ela tenta impor uma ordem numérica ao caos de prédios derrubados e vidas interrompidas por um tremor de magnitude 7,4.

Mais eloquente que a cifra dos mortos é a dos desaparecidos. O governo fala em 496. A Associated Press, em 3.000. A distância entre os dois algarismos é o abismo onde mora a incerteza de um país que tenta retirar seus vivos — e seus mortos — dos escombros. A declaração de “desastre nacional” por doze meses em doze departamentos é a admissão formal de que a terra, sob os pés, cedeu, e que a reconstrução será um trabalho lento, geracional, medido em anos e não nos três dias de luto oficial.

Enquanto a Colômbia conta seus corpos, a diplomacia internacional cumpre seu rito. A União Europeia anuncia ajuda, o Vaticano se diz “profundamente consternado”, o Brasil se põe à disposição. São gestos esperados, notas de um protocolo global que se ativa sempre que a terra treme em algum lugar do Sul. A solidariedade chega em comunicados oficiais e promessas de auxílio, mas a experiência do medo é intransferível. É a da brasileira no décimo quarto andar de um hotel em Bogotá, sentindo a estrutura balançar, descendo as escadas ao som de sirenes para encontrar na rua a visão desorientadora de prédios que dançam.

A tragédia se revela menos nos números finais do que na sua flutuação, na luta diária para que a contagem dos desaparecidos diminua e a dos mortos, tragicamente, se estabilize. O terremoto passa. A vibração na memória, não.

O que resta quando as equipes de resgate vão embora e a ajuda internacional se torna apenas uma linha no orçamento?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Terremoto na Colômbia deixa 265 mortos e 496 desaparecidos

Fontes: g1 · UOL