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A contabilidade dos corpos distantes

Análise · Clara Verdi Trezentos e catorze mortos na Colômbia.

A contabilidade dos corpos distantes
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Análise · Clara Verdi

Trezentos e catorze mortos na Colômbia. O número chega a Paris na quarta-feira como um ruído de fundo, uma estatística seca vinda do outro lado do Atlântico, e encontra lugar nos portais entre o retorno de um príncipe à Inglaterra e a demissão em massa em uma varejista brasileira. A tragédia, para existir no noticiário europeu, precisa ser contada em cifras redondas, pois a dor individual não atravessa o oceano. Apenas o volume. Apenas o choque do número.

A Colômbia, para o imaginário continental, permanece um lugar de abstrações — café, Shakira, violência política superada. Um terremoto ali abala uma terra que, na percepção europeia, já é permanentemente instável. É a periferia tremendo, como sempre tremeu. Os nomes das cidades destruídas, Buenaventura, Cali, Pereira, soam como notas de um realismo mágico que serve para confirmar a distância, não para aboli-la. São cenários, não lugares onde pessoas com nomes e futuros perdem tudo.

É uma aritmética cruel. A morte de uma mulher resgatada após 37 horas sob os escombros é uma nota de rodapé no fato principal, o número total de vítimas. Mas é ali, naquele corpo que sobreviveu ao colapso para morrer depois, que a verdadeira dimensão do desastre se revela. É o instante em que a esperança se torna um epílogo da catástrofe. Uma história que seria contada à exaustão, dissecada em seus detalhes humanos, se tivesse ocorrido em L'Aquila ou em Amatrice. Na Colômbia, ela se perde na contagem maior, como se o continente não tivesse tempo para dramas particulares tão longe de casa.

O presidente Abelardo De La Espriella pede a suspensão de tarifas a Donald Trump e Shakira promete reconstruir escolas. Gestos políticos e gestos midiáticos, as duas linguagens que o poder entende para responder ao caos. A vida, porém, pulsa em outro registro: no médico que salva dez recém-nascidos, um ato de resistência anônima contra a força bruta da terra. Esta imagem, muito mais potente que qualquer comunicado oficial, provavelmente não se fixará. A Europa está ocupada com seus próprios fantasmas e suas próprias ruínas.

O que resta, então, quando a poeira assentar e as equipes de resgate partirem? Restará uma paisagem de ausências, duzentos e sessenta e dois corpos por encontrar. E uma ferida que a geografia torna invisível para nós. Quantas catástrofes sul-americanas cabem em um dia de notícias na Europa antes que todas se tornem uma só?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Terremoto na Colômbia deixa 314 mortos e 262 desaparecidos

Fontes: g1 · UOL