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Aplicativo de saúde realiza cem mil consultas e vira política pública

Conheça o aplicativo que alcançou a marca de cem mil consultas, transformando a telemedicina em uma política pública eficaz para a saúde.

Aplicativo de saúde realiza cem mil consultas e vira política pública
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

Cem mil consultas. O número, por si só, é uma política pública. Ele traduz a escala do sofrimento represado e a dimensão da aposta do Ministério da Saúde: oferecer, por meio do aplicativo Meu SUS Digital, até cem mil teleatendimentos psicológicos por mês. O foco é preciso: mulheres em situação de violência, mães de crianças com deficiência, cuidadoras não remuneradas. Mulheres.

O desenho da iniciativa, batizada “Acolhe Mais”, contorna barreiras que conheci bem em dez anos de atendimento no Sistema Único de Saúde. A primeira é a vergonha. A segunda, a burocracia. Ao dispensar o encaminhamento de uma unidade de saúde e a necessidade de comprovar a violência ou a sobrecarga, o programa remove obstáculos que, na prática, muitas vezes impedem que a mulher sequer peça ajuda. O pedido é feito no sigilo do próprio celular, com um login da plataforma Gov.br, e a promessa de um primeiro contato da equipe em até 24 horas. É um reconhecimento tácito de que o caminho até o posto de saúde, a sala de espera, o guichê, pode ser um filtro de exclusão.

A distância que aproxima

Para uma mulher que vive sob violência, ou para uma mãe esgotada pela jornada de cuidado de um filho com doença rara, a logística de sair de casa para uma consulta pode ser proibitiva. O teleatendimento não é uma solução universal nem substitui o encontro presencial em todos os casos, mas neste contexto específico ele se torna a única porta de entrada possível. A tela do celular vira o consultório. A videochamada, o espaço seguro.

A estrutura proposta — ciclos de até 10 sessões com a mesma profissional, com possibilidade de renovação — indica uma preocupação com o vínculo terapêutico, elemento central para qualquer tratamento em saúde mental. Sem ele, a conversa não avança, a confiança não se estabelece e a intervenção se esvazia. É uma premissa técnica, não um detalhe.

Se a escala é ambiciosa, a execução será o teste de fogo. Garantir que 100 mil vagas mensais se traduzam em cuidado efetivo, com profissionais qualificadas e uma plataforma estável, é um desafio de gestão monumental. Esta leitura, portanto, é a de um projeto no papel; a realidade do sistema dirá se a clínica digital consegue, de fato, alcançar quem mais precisa.

Por ora, a iniciativa sinaliza uma compreensão fundamental. A de que a saúde mental de quem cuida e de quem é agredida não é uma questão individual, mas um problema de saúde pública. O que acontece quando o Estado oferece uma escuta sistemática a essas mulheres, no lugar e na hora em que elas podem falar?

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: SUS oferece até 100 mil teleconsultas psicológicas por mês

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.