Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

A capitã e a solidão da quadra vazia

Análise · Marcos Tibúrcio Uma capitã não lidera apenas no placar.

A capitã e a solidão da quadra vazia
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Uma capitã não lidera apenas no placar. Gabi Guimarães, a ponteira que carrega a braçadeira da seleção, sabe que há momentos em que o silêncio do vestiário é mais pesado que a vaia de um ginásio inteiro. E foi contra esse silêncio que ela se ergueu.

Enquanto a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) redigia o futuro em artigos e exames genéticos — um teste negativo para o gene SRY como passaporte para a quadra a partir de 2026 —, Tifanny, a oposta do Osasco, falava em outra língua. Não a do regulamento, mas a da vida. "Estão tirando de mim tudo o que eu tenho", disse ela. Não se referia a um troféu ou a um contrato. Falava do amor. Falava da profissão.

O voleibol, como qualquer esporte que se preze, vive de duelos. Saque e recepção. Bloqueio e ataque. Mas o que se viu nos últimos dias foi outro tipo de confronto: o da burocracia contra a biografia. O da norma contra o nome. E foi aí que a voz de Gabi Guimarães soou como o apito que interrompe uma jogada errada. Ela não discutiu o parágrafo da regra. Falou da pessoa.

Quem vai estar na guerra ao seu lado? E isso importa? Mais do que a própria guerra.

A frase que a capitã usou para abrir seu manifesto não é sobre tática. É sobre lealdade. Ela, junto à bicampeã olímpica Sheilla Castro, fez o que se espera de líderes: olhou para a companheira de ofício isolada do outro lado da rede e se recusou a sacar. Lembrou que, antes do atleta, existe o ser humano — uma verdade tão simples que, nos corredores do poder esportivo, muitas vezes se torna revolucionária.

Gabi admitiu as vezes em que se calou por medo ou conveniência. O "caminho mais fácil e cômodo", como ela mesma descreveu. A confissão humaniza a atleta e agiganta a capitã. A solidariedade dela e de Sheilla não é um gesto protocolar. É um ato de reconhecimento. É dizer, em público, que a dor de uma jogadora que vê sua carreira ameaçada por um documento é um problema de todas.

A CBV pode ter as suas razões, os seus estudos, as suas planilhas. Mas o esporte não acontece no papel. Acontece no suor, no grito, no corpo que se atira para salvar uma bola. Ao transformar uma atleta em um caso, a entidade a empurrou para a solidão. Gabi Guimarães a puxou de volta para o time.

Resta saber, quando a rede for armada para a temporada de 2026, quem mais terá a coragem de escolher um lado.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Gabi Guimarães apoia Tifanny após CBV banir mulheres trans no vôlei

Fonte: ge