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A caneta de Trump e a soberania europeia

Análise · Clara Verdi O anúncio veio em maiúsculas, como se o volume da fonte pudesse compensar a ausência de detalhes.

A caneta de Trump e a soberania europeia
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

O anúncio veio em maiúsculas, como se o volume da fonte pudesse compensar a ausência de detalhes. “CONSEQUÊNCIAS ECONÔMICAS ENORMES” para quem ousar manter a economia iraniana funcionando. A “guerra econômica” de Donald Trump, declarada de uma rede social, não é tanto uma estratégia quanto uma proclamação de poder bruto. É um ultimato. E seu primeiro alvo, antes mesmo de Teerã, é a frágil ideia de autonomia europeia.

O fracasso das negociações nucleares é o pretexto, o gatilho. O método, contudo, revela o verdadeiro alvo colateral. Ao ameaçar punir “QUALQUER país”, de seus aeroportos a suas instituições financeiras, Trump transforma uma política externa americana em um teste de lealdade global. Asfixiar o Irã, parceiro comercial de 147 nações, exige sufocar a soberania de cada uma delas. Para a Europa, que se equilibra há décadas entre a aliança atlântica e seus próprios interesses no Oriente Médio, a escolha é um garrote.

O dilema de Bruxelas

Haverá discursos sobre multilateralismo. Haverá notas diplomáticas lamentando a decisão unilateral. Mas nos conselhos de administração das empresas europeias — da alemã que exporta máquinas à italiana que depende do petróleo — a mensagem de Trump ressoa sem a mediação da diplomacia. “Vocês sabem quem são”, ele escreveu. E eles sabem. Sabem que o acesso ao sistema financeiro americano vale mais do que qualquer contrato com Teerã.

O que se desenha não é apenas o isolamento de um regime, mas a reafirmação de uma hierarquia. A ordem econômica global, neste quadro, não se rege por acordos ou leis internacionais, mas pelo alcance do Departamento do Tesouro americano. A complexa teia de relações que a Europa construiu com o Irã, um trabalho imperfeito e muitas vezes contraditório, pode ser desfeita com uma canetada em Washington. Ou, pior, com uma postagem.

Claro, a eficácia desta ofensiva ainda é uma folha em branco; o presidente não se deu ao trabalho de detalhar seu funcionamento. Mas o gesto, por si só, já produz efeito. Ele força os aliados a uma posição de subordinação explícita, expondo a distância entre a retórica da União Europeia como ator geopolítico e a sua capacidade real de agir contra a vontade de Washington.

Que caminhos restam a Paris, Berlim ou Roma quando a escolha se resume a obedecer ou enfrentar “consequências enormes”? E o que resta da soberania quando a decisão mais importante sobre sua política externa é tomada do outro lado do oceano?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Trump anuncia "guerra econômica" contra o Irã e ameaça parceiros

Fontes: g1 · UOL