Candidatos à Presidência pausam campanha antes do 1º turno
Principais candidatos à Presidência interrompem suas agendas de campanha próximo ao primeiro turno. O movimento estratégica e suas implicações.
Análise · Luciano Aragão
Dois candidatos à Presidência da República não tiveram agenda pública na terça-feira. Seus nomes: Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Um terceiro, Edmilson Costa, do PCB, cumpria compromissos do partido em Lisboa. Para um país a menos de dois meses da eleição, o dia 8 de setembro foi notável pelo que não aconteceu.
O vácuo deixado pelos ponteiros foi preenchido por um varejo de gestos. Em Campinas, o candidato do PSD, Ronaldo Caiado, visitou um centro de pesquisa em energia e materiais. Prometeu dobrar o investimento em ciência e tecnologia. Horas depois, em Jaguariúna, propôs um corte de 25% nos repasses a todos os Poderes da República. “A partir daí, você vai dando conta de colocar o país no lugar”, declarou. A aritmética de como um governo cortaria um quarto do orçamento do Legislativo e do Judiciário e, simultaneamente, dobraria o de uma área específica, ficou para outro dia.
Enquanto Caiado falava em cortes, Hertz Dias, do PSTU, visitava a Ocupação Coração Valente em Jacareí. Falava em plano nacional de moradia popular. Do outro lado do espectro, Renan Santos, do Missão, circulava por estúdios de rádio e YouTube na capital paulista. Romeu Zema, do Novo, foi a Brasília reunir-se com a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, a Abert. Cada um em seu nicho. O diálogo era com os convertidos.
O dia útil da política eleitoral tem uma rotina de fábrica. Sabatinas, entrevistas, reuniões com setores, caminhadas no interior, gravações para a TV. A agenda dos candidatos a governador na Bahia, em Goiás ou no Acre, com suas variações locais, confirma o roteiro. É um trabalho de repetição, de acúmulo. Por isso a ausência simultânea de Lula e Bolsonaro do palco principal é um fato político. Sugere que, para eles, a campanha real opera em outra frequência, talvez menos dependente do corpo a corpo e mais da estrutura que os cerca.
Ou, numa leitura menos generosa para as campanhas, pode ser apenas um dia de respiro, uma terça-feira sem fatos relevantes. Essa hipótese, contudo, ignora o tempo. Em uma eleição, o tempo é o único ativo que não se recupera. Cada dia sem agenda pública é um dia em que o adversário pode ter ocupado o espaço.
O que fazem, exatamente, os candidatos quando não têm agenda pública? A pergunta é menos trivial do que parece. É nesses dias sem holofotes que se costuram os acordos, se gravam os programas decisivos e se ajusta a rota. Ou se descansa. Em breve, as urnas dirão qual dos silêncios foi estratégia e qual foi apenas silêncio.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Candidatos presidenciais e estaduais cumprem agendas em 8 de setembro
Fontes: Agência Brasil · g1