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A campanha começa pelo passado

Análise · Beatriz Fonseca Dois candidatos, duas memórias.

A campanha começa pelo passado
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Análise · Beatriz Fonseca

Dois candidatos, duas memórias. O primeiro dia da campanha presidencial, liberada pelo Tribunal Superior Eleitoral neste domingo, 16 de agosto, não foi sobre o futuro. Foi sobre o ponto de partida de cada um. Luiz Inácio Lula da Silva foi a São Bernardo do Campo. Flávio Bolsonaro, a Copacabana.

A escolha dos locais diz tanto quanto os discursos que se seguiram. Em 1979, no Estádio da Vila Euclides, o então líder sindical Lula da Silva organizou assembleias de metalúrgicos que pressionaram a ditadura militar. Neste domingo, no mesmo estádio, o candidato ao quarto mandato presidencial falou em "comparação" entre governos e convocou sua militância a um trabalho que só termina em 5 de outubro, um dia após o primeiro turno.

A fala se ancora nessa mesma história. Ao dizer que não permitirá o retorno de “uma direita responsável pela morte de 400 mil pessoas sem vacina”, Lula estabelece um paralelo entre a resistência do passado e a oposição do presente. A estrutura do comício, com a presença de candidatos ao legislativo como Benedita da Silva, do Rio de Janeiro, reforça a imagem de um projeto coletivo, partidário, com raízes em movimentos sociais organizados. É a fotografia de um campo político que se reconhece em sua própria trajetória.

No Rio de Janeiro, a memória era outra, mais recente. A Praia de Copacabana foi palco de manifestações de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, inclusive atos contrários à sua prisão por tentativa de golpe de Estado. Ao escolher o mesmo cenário para o início de sua campanha, Flávio Bolsonaro, candidato à presidência, se conecta diretamente a essa base. Sua camiseta, "Meu Partido é o Brasil", sinaliza uma continuidade do discurso que se pretende nacional e apartidário, mesmo estando em um palanque com candidatos a vice e ao Senado.

O primeiro dia de campanha oficial, portanto, não apresentou propostas novas. Ele serviu para reafirmar identidades. Na minha interpretação, o que os candidatos buscaram não foi conquistar o eleitor indeciso, mas solidificar o eleitor já convencido. A campanha começou por um ato de reconhecimento mútuo, entre líder e liderados, nos territórios simbólicos que cada um reivindica para si.

As campanhas começaram em seus redutos. A questão que a eleição responderá é qual dessas memórias o país escolherá para o futuro.

Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Candidatos presidenciais iniciam campanha eleitoral em redutos

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.