Camisa da Seleção Brasileira: Mística em Campo
Marcos Tibúrcio analisa o peso e a mística da camisa da Seleção Brasileira, símbolo de glórias e expectativas no futebol nacional.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há onze taças sul-americanas na estante da Confederação. Onze. E nenhuma do mundo. O futebol, este roteirista sádico, adora um paradoxo. O Brasil chega à Polônia em setembro como o de sempre: dono do seu continente, forasteiro na festa principal. A estreia contra a Tanzânia, no dia 5, não é apenas o começo de um torneio. É o início de mais uma tentativa de resolver essa velha contradição.
O passado cobra seu preço. Os terceiros lugares de 2006 e 2022, honrosos, servem mais como lembrete do que falta do que celebração do que se teve. Uma geração que cresceu vendo a Coreia do Norte levantar três troféus sabe que o talento sul-americano, por si só, não basta. É preciso algo mais. Um nervo, uma casca, a capacidade de transformar a promessa em fato num estádio gelado na Silésia, longe de casa.
A história desta seleção, no entanto, talvez não esteja nos troféus que faltam, mas nas jornadas que a formam. Veja-se o caso de Thaís, a goleira. Nascida em Portugal, filha de pai brasileiro, mãe angolana. Vestiu a camisa da base portuguesa do sub-15 ao sub-19. O caminho lógico, o passaporte diria, era outro. Mas há coisas que o bureau de imigração não explica. A camisa amarela, quando chama, não aceita um não como resposta. O chamado da CBF, fruto de um projeto de observação, foi menos um convite e mais uma intimação do destino. Ela veio.
Um departamento inteiro da CBF se moveu para que uma meia de 17 anos, titular do Flamengo, pudesse jogar uma partida do Brasileirão antes de se apresentar. Um detalhe, dirão os apressados. Mas é nos detalhes que se mede a febre de uma campanha.
Ainda é cedo, claro, para qualquer veredito. O futebol feminino no país ainda briga por cada centímetro de grama e de respeito, e uma campanha na base, por melhor que seja, não reescreve a história de uma só vez. Um olhar mais cético lembraria que o peso da camisa por vezes esmaga mais do que impulsiona, e que a distância entre o domínio continental e o mundial é um abismo que já engoliu outras equipes talentosas.
Mas quando a bola rolar em Bielsko-Biala, a dez da manhã no fuso do Brasil, o que estará em campo é mais que um time. É uma escolha. A escolha de uma goleira que trocou de pátria. A escolha de uma comissão que negocia para ter sua meia por mais um dia. O futebol é feito de escolhas, não de certezas. Qual será a desta geração?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge