Memória e finanças: 8 milhões de brasileiros usam caderneta
Dra. Camila Torres analisa como oito milhões de brasileiros ainda utilizam a caderneta de poupança, um número que inspira celebração, mas exige vigilância contínua.
Análise · Dra. Camila Torres
Oito milhões. Um número para celebrar, mas não para relaxar. Oito milhões de doses aplicadas na Campanha Nacional de Multivacinação que se encerrou, um esforço logístico imenso que percorre o país da Unidade Básica de Saúde da metrópole ao posto fluvial da Amazônia. É o Sistema Único de Saúde em seu desenho original: capilar, presente, insistente. Mas os números, em saúde pública, são como icebergs. O que vemos na superfície esconde uma massa de questões submersas.
As oito milhões de doses não representam oito milhões de crianças com a caderneta em dia. Cada criança ou adolescente, ao sentar na cadeira da sala de vacinas, passa por uma avaliação individual. Uma pode precisar apenas de um reforço, outra de múltiplas aplicações para colocar o esquema em ordem. O número final, portanto, reflete a intensidade do esforço, mas não mede com precisão o tamanho da brecha na cobertura vacinal que tentamos fechar.
O retorno do sarampo em São Paulo é o sintoma mais agudo dessa fragilidade. Foram 26 casos confirmados até o fim de agosto. Desses, 19 não tinham vacinação ou apresentavam esquema incompleto. O sarampo é um mensageiro cruel. Por sua altíssima transmissibilidade, ele é o primeiro a expor as falhas na imunidade coletiva. Onde a vacina falta, o vírus encontra uma porta aberta. Em 2025, foram 38 casos no país, importados ou ligados à importação. O vírus já batia à porta. Agora, parece ter entrado.
Lembro de manhãs no SUS em que a preocupação dos pais era garantir a vacina. Hoje, parte do nosso trabalho é vencer a hesitação, a desinformação, o esquecimento. A vacinação deixou de ser um gesto automático, quase cultural, para se tornar um ato que exige convencimento. A introdução da vacina pneumocócica 20-valente (Pneumo 20) no calendário, uma conquista técnica notável contra meningites e pneumonias, corre o risco de ser subaproveitada se a população não percebe o valor do programa como um todo.
O fim da campanha não significa o fim da vacinação; as doses seguem disponíveis. Mas o impulso da mobilização se dissipa. A tarefa de resgatar os não vacinados volta a ser um trabalho miúdo, paciente, de busca ativa. Resta saber se o esforço concentrado de agosto foi suficiente para reconstruir o muro imunológico ou se apenas tapamos algumas frestas. A resposta virá nos próximos boletins epidemiológicos.
O sarampo, afinal, não é uma doença de memória curta. Ele lembra exatamente onde estivemos ausentes.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Multivacinação de 2026 termina após aplicar 8 milhões de doses
Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.