Governo negocia ingressos populares na Copa do Mundo feminina
Brasil busca negociação com a Fifa para garantir ingressos populares na Copa do Mundo feminina e promover maior inclusão.
Análise · Marcos Tibúrcio
O governo fala em negociar com a Fifa um lote de ingressos a “preços populares” para a Copa do Mundo feminina. Fala em “acesso” e “democratização”. A burocracia, vestida de boas intenções, anuncia que quer um estádio com a cara do povo brasileiro em 2027. Uma intenção louvável, que ecoa bem em qualquer entrevista. Na arquibancada, porém, a memória é mais longa que o discurso.
Em 2014, o Brasil também sediou uma Copa. O então secretário-geral da entidade máxima do futebol, um francês chamado Jerome Valcke, sugeriu aplicar um “chute no traseiro” do país para acelerar as obras. O pontapé não veio, mas a conta sim. O povo pagou por estádios que hoje se perguntam para que servem. E, na hora do jogo, viu de longe. Viu pela televisão. O ingresso era artigo de luxo, passaporte para uma festa onde o anfitrião não era convidado.
Agora, a secretária extraordinária para o evento, Juliana Agatte, uma economista de carreira no serviço público, diz que a Fifa está “sensível” à nossa realidade. Que a conversa é outra. É possível. Mas a lógica do futebol como negócio global raramente se dobra à poesia local. A Copa, para quem a organiza, é um produto. A própria secretária o define assim: “ele é um produto importante, tem muitos patrocinadores”. Não há erro na frase, apenas uma verdade fria. Um produto precisa de mercado, não de gente.
A discussão sobre o ingresso popular não é sobre preço. É sobre pertencimento. É sobre decidir se a Copa será um evento *no* Brasil ou um evento *do* Brasil. Se a menina que sonha em ser a próxima Marta terá a chance de vê-la, ao vivo, ou se o espetáculo será, outra vez, um congresso de executivos e turistas que aprenderam a cantar o hino no voo de vinda.
A ideia de usar o torneio para acelerar o desenvolvimento do esporte feminino é correta, é necessária. Mas legado não se constrói com relatório, se constrói com memória afetiva. Constrói-se com a avó que leva a neta ao estádio pela primeira vez, com o grito de gol que o pai e a filha dão juntos, com a imagem que fica para sempre na retina de uma criança. Isso não tem preço, mas custa a renúncia de uma fatia do lucro.
A Fifa será mesmo sensível, ou apenas o governo brasileiro é que aprendeu a pedir com mais jeito? Eis a pergunta que só a bilheteria, daqui a nove meses, poderá responder.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge