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A burocracia do céu e os telhados de Pedro Osório

Análise · Luciano Aragão Às 15h50 de quinta-feira, a Defesa Civil do Estado do Rio Grande do Sul emitiu um alerta.

A burocracia do céu e os telhados de Pedro Osório
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Análise · Luciano Aragão

Às 15h50 de quinta-feira, a Defesa Civil do Estado do Rio Grande do Sul emitiu um alerta. A nota previa “alto risco de destelhamento” e valeria até as 19h50. No meio do caminho, um tornado passou pelo município de Pedro Osório. Depois dele, o órgão estadual elevou a notificação para alerta vermelho em 19 cidades e contou os estragos em uma centena de outras.

A meteorologia, como a política, tem seus ritos e seu léxico próprio. Um “ciclone bomba”, nome que parece saído da assessoria de um líder do centrão em busca de manchetes, é um fenômeno técnico. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) o descreve com a frieza de um relatório de comissão: chuvas, trovoadas, queda de temperatura de 3ºC a 5ºC, possibilidade de geada. Um “alerta laranja” é uma peça burocrática que cumpre sua função: o Estado avisou. Fica registrado no sistema.

O que o sistema não registra é o intervalo entre o alerta e o fato. Entre o papel que circula nos gabinetes climatizados e a árvore que bloqueia uma via, o fio de alta tensão rompido, o telhado que se desfaz sobre a sala de uma família. A máquina pública funciona por antecipação e protocolo. A vida real, por sua vez, não costuma pedir licença para acontecer.

A tempestade, como uma crise de governo, segue sua própria lógica. Avança por São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com efeitos secundários em Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. O Estado monitora, nomeia, classifica. Produz o dado. Para o cidadão em Pedro Osório, o dado mais relevante era o vento que chegava. O resto é a contabilidade do dia seguinte, a longa lista de municípios que se habilitarão aos programas de reconstrução.

O alerta laranja cumpriu seu papel. O vermelho, também. O tornado não preencheu formulário. A chuva não participou da reunião. Quantos governos se preparam para o evento descrito no ofício, apenas para descobrir que a realidade é sempre mais criativa?

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Ciclone bomba mantém alerta laranja no Sul e Sudeste nesta sexta (7)

Fonte: Agência Brasil