A bomba retórica de Washington
Análise · Clara Verdi O comunicado do Departamento de Energia americano, com sua prosa burocrática sobre “altos padrões de segurança” e “parceria…
Análise · Clara Verdi
O comunicado do Departamento de Energia americano, com sua prosa burocrática sobre “altos padrões de segurança” e “parceria de várias décadas”, tem a virtude involuntária de revelar aquilo que pretende esconder. O acordo de cooperação nuclear assinado com a Arábia Saudita não é sobre energia, não no sentido imediato de iluminar cidades ou mover a indústria. Levará, na melhor das hipóteses, uma década para que um reator saudita entre em operação, tempo mais que suficiente para que as alianças que hoje parecem sólidas se desfaçam em pó no deserto. A questão, portanto, não é o megawatt. É a mensagem.
A história do Oriente Médio é escrita na linguagem da força, real ou potencial. Ao chancelar o direito saudita a um programa nuclear — e, crucialmente, ao deixar em aberto a possibilidade de que enriqueçam urânio em seu próprio solo —, os Estados Unidos não estão apenas abrindo um mercado bilionário para suas empresas. Estão entregando uma arma retórica a Riad, uma carta a ser jogada na mesa de pôquer com Teerã. O Irã avança com seu programa, cercado de sanções e ameaças; a Arábia Saudita, aliada fiel que abriga bases americanas e compra armamentos, ganha agora a promessa da mesma tecnologia, mas sob a bênção de Washington.
É uma lógica de Guerra Fria aplicada a um tabuleiro regional incandescente. A dissuasão pelo equilíbrio do terror. Uma aposta perigosa, que ignora a fluidez das lealdades e a instabilidade intrínseca de regimes autocráticos. A reação em Israel, onde o ex-ministro Avigdor Liberman já pede uma “ação com determinação” para impedir o acordo, não é paranoia. É a leitura lúcida de quem sabe que a tecnologia, uma vez concedida, escapa ao controle de seus padrinhos. A capacidade de enriquecer urânio para fins pacíficos é separada da capacidade de fazê-lo para fins militares por uma linha tênue chamada intenção política.
O gesto americano, anunciado em meio a ataques de milícias pró-Irã e bloqueios marítimos dos houthis, é uma resposta tática que pode gerar um problema estratégico insolúvel. A promessa de um futuro nuclear saudita é menos sobre a matriz energética do reino — hoje afogada em gás e petróleo — e mais sobre redesenhar o mapa do poder. Washington arma um aliado com uma ameaça futura para conter um inimigo presente, e chama a isso de cooperação pacífica. Uma *pax atomica* para o Golfo Pérsico, com todas as chances de dar errado.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: EUA e Arábia Saudita assinam acordo de cooperação nuclear pacífica
Fontes: BBC News Brasil · UOL