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A bola que faltava neste chão

Análise · Marcos Tibúrcio O futebol, neste país, sempre foi coisa de avô para neto. De pai para filho.

A bola que faltava neste chão
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

O futebol, neste país, sempre foi coisa de avô para neto. De pai para filho. Uma herança de gritos e abraços passados na arquibancada, um evangelho masculino pregado em mesas de bar. Mas o tempo, que é o mais sábio dos juízes, tem um apito que não se cala. E agora, em 2027, entrega a Copa do Mundo feminina ao Brasil. Não como uma concessão. Como uma inevitabilidade.

A notícia não é sobre cimento e estádios. Já os temos, envelhecendo sob o sol, monumentos de uma outra festa, a de 2014. A notícia é sobre a rua, o campinho de terra, o recreio da escola. É sobre a Sofia, de treze anos, que promete “se comportar melhor” para convencer os pais a levá-la ao Maracanã. E sobre a Manuela, de seis, que mal consegue conter a euforia para, enfim, “ver as meninas jogarem”.

O futebol delas não pediu licença. Invadiu. Chegou pela teimosia, pelo talento que se recusava a ser invisível. Pela perna forte de quem cresceu ouvindo que aquele não era seu lugar. Quantas Martas não se perderam em campos de várzea anônimos, sem um refletor, sem um olhar, sem um contrato? A pergunta não é retórica; é uma dívida.

Trazer o Mundial para o solo que se acostumou a endeusar apenas Pelé, Garrincha e Zico é uma correção de rota histórica. Uma chance de apresentar à Manuela e à Sofia — e aos seus irmãos e primos — um panteão diferente. É a chance de um pai levar a filha ao estádio não para que ela aprenda a torcer por homens, mas para que veja mulheres e se veja nelas.

Aline Pellegrino, que já foi dona da braçadeira em campo, fala em “legado cultural”. A palavra é de diretoria, mas a verdade é da arquibancada. O verdadeiro legado não será um troféu — ainda que ele seja o objetivo final de quem veste a camisa —, mas a imagem de uma menina, no portão da escola, driblando um colega com a mesma naturalidade com que respira.

Quando a Espanha, atual campeã, a Holanda, a Inglaterra e as tetracampeãs americanas desembarcarem aqui, não trarão apenas atletas. Trarão a prova viva de que o jogo pode, e deve, ser de todos. A Copa de 2027 não é sobre receber o mundo. É sobre o Brasil, finalmente, se apresentar por inteiro ao esporte que diz amar.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasil sedia Copa do Mundo Feminina de 2027 entre junho e julho

Fontes: Agência Brasil · ge