A bola oval dos descalços olímpicos
Análise · Marcos Tibúrcio Há um mapa que não se aprende na escola.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um mapa que não se aprende na escola. Nele, a Alemanha não é a terra de Beckenbauer, mas o campo de prova para doze brasileiros de um outro futebol. Um futebol sem chuteiras de marca, sem o VAR, sem o apito que paralisa o Maracanã. Um futebol de pés no chão e uma bola oval na mão. Em Düsseldorf, a seleção que se batizou “Brasil Onças” joga a vida. E joga por um lugar em Los Angeles, em 2028, quando a novidade terá nome de Olimpíada.
Os rapazes falam em “botar o Brasil onde ele merece”. A frase, ouvida de Bernardo Horevitch, um dos paranaenses da delegação, soa familiar. É a mesma de todo jogador que já vestiu a amarelinha, seja ela de pano, de náilon, de algodão ou de pura esperança. A camisa, afinal, não muda; o que muda é o tamanho do sonho. Para o flag football, um esporte que ainda soletra o próprio nome para a arquibancada, o sonho é o gigantismo dos anéis olímpicos.
A geografia da fé
A tabela, esse documento frio, informa: a chave tem Suíça, Alemanha e México. Para o cartório do esporte, são potências. Terceiro do mundo, a dona da casa, o vice-líder do ranking. Para os doze das Onças, são apenas os homens que estão entre eles e a glória. O futebol — qualquer futebol — não se joga com o passado, mas com o presente. E o presente da seleção é um título sul-americano recente, arrancado do Chile por dois pontos. Dois. Uma unha. Um suspiro.
É dessa fé no detalhe, na margem de erro do adversário, que eles se alimentam. “A gente é imparável”, diz Bernardo. Não é arrogância. É o evangelho de quem não tem nada a perder e uma pátria inteira a descobrir. Uma pátria que, por ora, assiste a outra Copa, a de sempre, nos estádios monumentais da América do Norte. Enquanto isso, na Alemanha, doze anônimos disputam o direito de serem vistos.
Nenhum deles pedirá passagem. Não haverá manchetes garrafais, nem comoção nacional se a bola não entrar. É uma luta silenciosa, quase clandestina. Uma batalha por reconhecimento, travada a milhares de quilômetros de casa. Cada passe, cada corrida, cada ponto é um tijolo na construção de um futuro que, até ontem, não existia.
Eles jogam hoje, e depois de novo, e amanhã mais uma vez. Talvez não se classifiquem. Talvez voltem para casa sem a vaga olímpica no bolso. Mas quem já pisou num estádio sabe: o resultado é só uma parte da história. A outra, a que importa, é a da coragem de entrar em campo. Que história esses doze terão para contar?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge