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A banalidade do alarme aéreo

Análise · Clara Verdi A terça-feira começou em Moscou com o som que se tornou rotina em Kiev.

A banalidade do alarme aéreo
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A terça-feira começou em Moscou com o som que se tornou rotina em Kiev. Seiscentos e vinte drones no céu da capital russa não são mais um evento isolado, um espasmo de desespero no front. São a nova gramática da guerra, uma em que a ilusão de um conflito contido em território alheio se desfaz com cada alarme que soa antes do café. A guerra, para o moscovita, já não é apenas uma “operação especial” transmitida pela televisão.

O alvo desta vez não foi um centro de comando ou um quartel-general, mas um depósito da Wildberries, gigante do comércio eletrônico. Um lugar comum, anônimo. Atingir a logística do consumo é uma escolha que fala mais do que a destruição de um alvo militar. É um ataque à normalidade que o Kremlin se esforça para sustentar, um lembrete de que a infraestrutura que entrega pacotes também pode ser parte do campo de batalha. Três feridos, entre eles uma menina de dez anos. Números frios, quase burocráticos, que escondem a violência da intrusão.

Enquanto isso, na Crimeia, o efeito foi mais direto, menos simbólico. A península anexada em 2014, transformada em fortaleza e vitrine do projeto imperial russo, ficou às escuras. A Krymenergo, a companhia elétrica local, descreveu a situação como crítica em várias áreas. A luz que se apaga na Crimeia é a imagem precisa do que este ataque significa: a capacidade ucraniana de projetar instabilidade sobre os territórios que a Rússia considera definitivamente seus. A ponte de Kertch já havia sido um recado; os blecautes são a sua repetição metódica.

O número de drones, 620, impressiona pela escala, mas a verdadeira mudança não é quantitativa. É a normalização do ataque. A guerra voltou para casa, para as cidades que a iniciaram, e agora se inscreve no cotidiano de armazéns e subestações de energia. A cada sirene, a cada notícia de um telhado danificado, a distância entre a Praça Vermelha e a linha de frente encolhe.

Quantos depósitos em chamas serão necessários para que o conflito deixe de ser um espetáculo distante e se torne um problema doméstico incontornável?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Ucrânia lança 620 drones e atinge Moscou e Crimeia em 18 de agosto

Fontes: g1 · UOL