Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

A banalidade da décima segunda noite

Análise · Clara Verdi A guerra, quando se torna um hábito, perde a sua sintaxe.

A banalidade da décima segunda noite
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A guerra, quando se torna um hábito, perde a sua sintaxe. Deixa de ser um evento e passa a ser uma condição do tempo, como a chuva ácida ou o calor insuportável de julho. A décima segunda noite consecutiva de ataques americanos contra o Irã não é mais uma notícia; é uma rotina macabra, anunciada na rede social X pelo Comando Central dos EUA com a mesma frieza de um comunicado sobre o trânsito. A violência transformada em burocracia, o míssil como um memorando expedido às cinco e meia da tarde, horário da costa leste.

O que se desenrola entre Washington e Teerã é um diálogo de surdos conduzido por explosivos. Donald Trump ameaça destruir uma “ponte ou usina de energia”, e uma autoridade iraniana, anônima como convém ao aparelho de Estado, responde com uma simetria terrível: se o fizerem, atacaremos “infraestruturas e pontes em toda a região”. É a lógica da retaliação espelhada, um jogo perigoso que transforma as artérias da vida civil — pontes, usinas — em alvos legítimos. A linguagem da diplomacia foi substituída por um inventário de alvos potenciais, uma troca de promessas de destruição.

A justificativa oficial americana, a de “reduzir ainda mais” a capacidade iraniana de ameaçar a navegação comercial, soa cada vez mais oca a cada noite que passa. Depois de doze noites, o que ainda falta “reduzir”? A repetição esvazia o pretexto. O que resta é o espetáculo da força por si mesma, uma demonstração contínua de poder que serve menos para garantir a segurança no Estreito de Ormuz e mais para inscrever a dominação na paisagem. É uma guerra performática, travada para as câmeras e os comunicados de imprensa, onde o verdadeiro objetivo parece ser a própria continuidade da ação.

Esta normalização é o verdadeiro perigo. Quando a contagem das noites de bombardeio substitui a busca por uma solução, o extraordinário se torna ordinário. E um conflito que se torna parte da rotina deixa de exigir uma resolução urgente. Ele simplesmente é. Uma condição permanente, uma ferida aberta mantida deliberadamente infeccionada, noite após noite, até que ninguém mais se lembre de como era a vida antes do som dos ataques que marcam o fim de mais um dia.

Clara Verdi

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: EUA realizam 12ª noite de ataques contra o Irã

Fontes: CNN Brasil · UOL