Público do Mundial forma fila antes da bola rolar
Milhares de torcedores se antecipam e formam longas filas para a Copa do Mundo, mesmo antes do início oficial dos jogos, marcando o entusiasmo pelo evento.
Análise · Marcos Tibúrcio
A Copa do Mundo começa sem bola. Começa com uma fila. Cem mil pessoas, em julho, disseram à Fifa que dariam seu tempo, de graça, pela Copa Feminina no Brasil. Cem mil. Para uma convocação oficial de seis mil vagas, aberta agora. Os números são frios, mas a história que contam é outra: o torneio de 2027 já tem sua primeira torcida — e ela quer trabalhar nele.
Não se paga para ser voluntário. Paga-se com o avesso do dinheiro: tempo, suor, a paciência para guiar um jornalista estrangeiro perdido em busca do portão certo em Porto Alegre, a disposição para carregar caixas no calor de Fortaleza. O voluntário é a arquibancada que chega antes de todo mundo, quando o estádio ainda é um esqueleto de concreto e silêncio. Ele é o primeiro rosto que um time visitante vê ao desembarcar no aeroporto, a primeira voz que explica o caminho para o vestiário.
O comunicado da Fifa fala em 20 áreas de atuação, de mídia a transporte, e lista requisitos como ter 18 anos e saber português ou inglês. Detalhes de um edital. O que o papel não diz é o que move alguém a se candidatar. Não é um emprego. É uma peregrinação. É a chance de estar dentro do drama, de respirar o mesmo ar tenso de um dia de jogo, de fazer parte do quadro sem ser a tinta principal.
Em 2014, na Copa masculina, foram 13 mil voluntários. Uma década depois, a procura pelo evento feminino já sinaliza uma demanda que transborda.
Há, claro, quem enxergue a cena com o ceticismo de sempre: mão de obra gratuita para uma entidade bilionária. A leitura não é desonesta, e o debate sobre o modelo de negócio da Fifa é justo. Mas ela parece ignorar a natureza do chamado. O futebol, aqui, não é só um produto. É um rito. E participar dele, mesmo nos bastidores, tem um valor que planilha nenhuma calcula.
A primeira Copa Feminina na América do Sul não será feita só pelas atletas em campo, pelos técnicos na beirada do gramado ou pelos dirigentes nos camarotes. Ela será erguida por milhares de anônimos que escolheram estar ali. Eles são o prólogo do espetáculo, o rumor que antecede o grito da multidão.
Quando a bola rolar em junho de 2027, as arquibancadas de oito cidades brasileiras estarão tomadas. Mas quem olhar com atenção verá, nos corredores e portões, a torcida que vestiu o colete antes de vestir a camisa. Qual o tamanho da fome do Brasil por esta Copa? Talvez a resposta esteja nessa fila invisível, cem mil vozes fortes, que já começou.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Fifa abre inscrições para voluntários da Copa Feminina 2027
Fontes: CNN Brasil · ge