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A aritmética dos drones

Análise · Clara Verdi A morte tem uma contabilidade precisa.

A aritmética dos drones
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Análise · Clara Verdi

A morte tem uma contabilidade precisa. Na última noite, foram seis mísseis balísticos e 151 drones lançados pela Rússia contra a Ucrânia. Apenas 29 dos 195 mísseis balísticos disparados em julho foram interceptados. As defesas aéreas ucranianas derrubaram 135 drones. Faltaram alguns. Numa aldeia perto de Kiev, um menino de três anos e seus avós morreram. Outra pessoa morreu na capital. Fim da conta.

Números são o refúgio da burocracia da guerra. Eles organizam o caos em planilhas que chegam às mesas em Bruxelas, Washington ou Belgrado, onde Volodymyr Zelensky busca, neste exato momento, mais sistemas Patriot. Do outro lado da fronteira, a Ucrânia também faz sua própria contabilidade: refinarias de Ilsky e Syzran atingidas, incêndios, cinco feridos em Krasnodar. Um drone por um drone, uma refinaria por uma casa. A simetria brutal de uma guerra que se agarra ao território, mas se decide no céu.

Tanto a Rússia quanto a Ucrânia, como é de praxe, negam ter civis como alvo. É o mantra diplomático que acompanha a fumaça dos escombros. Uma formalidade gasta, um acordo tácito para que a violência possa seguir seu curso sem o embaraço de se chamar pelo nome. Mas as palavras perdem o sentido diante do fato. Não há alvo militar em um menino de três anos. O que há é a lógica perversa de um conflito que, ao não poder vencer no campo, busca esgotar a retaguarda, semear o que o presidente ucraniano chama de pânico.

Vladimir Putin, diz Zelensky, “está se agarrando desesperadamente aos seus mísseis”. A imagem é a de um homem que recusa o fim. O fim da guerra, o fim de uma ambição, o fim de uma era. Mas o desespero do Kremlin não é uma abstração geopolítica. Ele se materializa em estilhaços sobre uma aldeia qualquer, na interrupção de uma genealogia. Um menino e seus avós. Uma família inteira apagada do mapa entre um ataque a uma refinaria e uma cimeira na Sérvia.

A Europa e os Estados Unidos, segundo a mesma declaração, querem o fim desta guerra. O desejo, no entanto, não intercepta mísseis. Sem as armas para fechar o céu, o que resta à Ucrânia é a contabilidade das perdas. Quantas famílias ainda cabem nessa equação?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Ataque russo com drones mata criança e avós na região de Kiev

Fontes: CNN Brasil · UOL