Mercado de trabalho aquecido no Brasil cresce 5,3%
O mercado de trabalho brasileiro registrou um crescimento de 5,3% no último trimestre, indicando um cenário aquecido.
Análise · Ricardo Mendes
O número é expressivo: 5,3%. É a menor taxa de desemprego para um trimestre encerrado em julho desde o início da série histórica da Pnad Contínua, em 2012. O contingente de pessoas ocupadas bate recorde, com 103,3 milhões. O volume de empregos com carteira assinada, 39,4 milhões, também atinge seu ápice. A leitura imediata, de um mercado de trabalho robusto, é correta. A leitura completa, contudo, exige observar as tensões sob essa superfície.
O dado principal mascara dinâmicas distintas e, por vezes, contraditórias. A queda do desemprego se deu tanto por via da criação de vagas formais quanto por uma expansão notável da informalidade. O número de trabalhadores sem carteira assinada cresceu 3,6% em um único trimestre, um acréscimo de 477 mil pessoas. Em consequência, a taxa de informalidade — a proporção de trabalhadores sem garantias como férias ou seguro-desemprego — avançou para 37,5%, ante 37,2% no trimestre anterior. Não se trata de um movimento marginal.
A qualidade da ocupação
A força do mercado de trabalho, portanto, não é homogênea. O fato de a população desalentada — aquela que desistiu de procurar emprego por não acreditar que encontraria — ter recuado 9,7% é um sinal de vigor. Mostra que a percepção de oportunidade se disseminou. Mas essa oportunidade, para uma parcela relevante dos novos ocupados, veio sem os benefícios e a estabilidade do emprego formal. Esse é um ponto de atenção para a sustentabilidade da expansão do consumo e para a arrecadação da Previdência no médio prazo.
O segundo ponto de atrito nos dados está no rendimento. O salário médio real do trabalhador recuou 0,7% na comparação com o trimestre até abril, para R$ 3.762. O IBGE classifica a variação como estatisticamente estável, mas a direção do vetor importa. Um cenário de pleno emprego costuma pressionar salários para cima, pela competição por mão de obra. A estagnação da renda, mesmo com desemprego em mínima histórica, sugere que a qualidade das vagas geradas pode não ser suficiente para alavancar o poder de compra de forma generalizada. Esta é uma hipótese que os próximos meses irão confirmar ou refutar.
O Brasil está próximo do menor patamar de desemprego já registrado pela pesquisa, de 5,1% no fim de 2025. O contraste com o pico de 14,9% da pandemia é um feito civilizatório, reflexo de uma economia que absorve mão de obra. Mas celebrar o número sem examinar sua composição seria um erro. Um mercado de trabalho aquecido com renda estagnada e informalidade em alta é um quadro complexo. A quantas anda, de fato, a produtividade da economia brasileira?
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Desemprego cai a 5,3%, menor taxa para julho desde 2012
Fonte: Agência Brasil
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