Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

A anatomia da ausência

Análise · Clara Verdi Quando a terra treme, os edifícios caem. Depois, cai o Estado.

A anatomia da ausência
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Quando a terra treme, os edifícios caem. Depois, cai o Estado. Em Cali, na segunda-feira, a primeira queda foi geológica; a segunda, política. A psicóloga Kelly Díaz não esperou pelo resgate oficial quando sentiu o chão mover-se sob seus pés e correu de volta à escola da filha. Encontrou escombros, crianças feridas, e a melhor amiga de sua filha morrendo em uma poça de sangue. As ambulâncias não chegavam. A ajuda não vinha. O que se seguiu não foi o protocolo de emergência, mas um gesto anterior a qualquer manual: a solidariedade dos desesperados.

Foram os voluntários que assumiram a tarefa. Foram eles, Kelly Díaz e Juan A. Carabalí e outros cujos nomes não sabemos, que verificaram sinais vitais, cuidaram dos feridos e, por fim, carregaram os corpos para fora do que um dia foi a escola Nuevo Edén. “Nós, os voluntários, fomos os que carregamos os corpos para fora”, conta Díaz. A frase, de uma simplicidade brutal, não descreve apenas uma ação. Ela define o vácuo deixado pelas instituições no momento preciso em que sua existência se justificaria.

A cena em Cali é um retrato da soberania em suspensão. Onde se esperava a sirene, houve o silêncio. Onde se esperava o aparato de defesa civil, surgiram os pais, os vizinhos, os passantes. Pessoas comuns, movidas pelo instinto e pela dor, tornaram-se o único poder operante naquele microcosmo de concreto partido. Não é uma história de heroísmo cívico, embora contenha heróis. É, antes, uma lição sobre a fragilidade do contrato que nos organiza como sociedade. Acreditamos na promessa de que, na catástrofe, alguém virá. Mas às vezes, não vem ninguém.

Se tivéssemos esperado pelas ambulâncias, teríamos ficado lá até o amanhecer.

O corpo de Kelly Díaz, ela acredita, segue funcionando em estado de alerta. É o corpo de quem sabe que a vida deve prevalecer. É também o corpo político que se ergue quando o corpo do Estado falha. Ela voltou para salvar a filha e acabou tentando salvar a todos, assumindo para si a responsabilidade que fora delegada e não cumprida. Com 74 mortos e 150 desaparecidos só em Cali, a cidade inteira se tornou a escola Nuevo Edén, um lugar onde a comunidade se vê forçada a resgatar a si mesma.

O que resta quando os escombros assentam e os voluntários, exaustos, finalmente param? Resta a imagem de uma mãe carregando o corpo da amiga de sua filha, e a pergunta sobre quem, afinal, nos resgata quando tudo desaba.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Psicóloga relata resgate em escombros de escola de Cali, Colômbia

Fontes: g1 · BBC News Brasil