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A Amazônia não quer ser paisagem de campanha

Análise · Beatriz Fonseca Uma cobra cenográfica de trinta metros, a mesma da COP30 em Belém, reapareceu em Alter do Chão, no Pará.

A Amazônia não quer ser paisagem de campanha
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Beatriz Fonseca

Uma cobra cenográfica de trinta metros, a mesma da COP30 em Belém, reapareceu em Alter do Chão, no Pará. Estava ali para marcar o início de uma contagem regressiva: a um mês das eleições gerais de 4 de outubro, comemora-se o Dia da Amazônia. A coincidência de datas, longe de ser fortuita, é o centro da estratégia do movimento Amazônia de Pé, uma articulação de 300 coletivos e organizações. Seu lema para a campanha eleitoral de 2026 é direto: "Cada voto pela Amazônia conta".

A iniciativa, batizada de Virada Cultural, organiza mais de 300 eventos pelo país. A escala da mobilização — de Norte a Sul, segundo seus organizadores — sugere um movimento que busca traduzir a consciência ambiental em capital político explícito. É uma tentativa de forçar a pauta da floresta para dentro dos planos de governo, para além das menções protocolares em debates e programas eleitorais. Catarina Nefertari, codiretora do movimento, afirmou à Agência Brasil que é preciso ser visto por quem está em campanha, para que as propostas de quem vive no território não sejam esquecidas. É uma cobrança por substância.

O eleitor como fiscal

Na minha leitura, a ação deste 5 de setembro sinaliza uma mudança de método. A pressão sobre as candidaturas não se concentra mais apenas em cartas de compromisso ou em eventos para a fotografia. A campanha se volta para o eleitor, atribuindo-lhe a responsabilidade de auditar as propostas e o histórico de quem pede seu voto. O apelo é para que a escolha na urna reflita uma agenda de conservação que o Estado, por si, pode não garantir. Transforma-se uma data cívica, oficializada em lei desde 2007, em um instrumento de fiscalização eleitoral.

A celebração do Dia da Amazônia, que remonta à criação da Província Amazônica em 1850, sempre teve um caráter histórico, quase nostálgico. A campanha "Amazônia de Pé" a politiza no sentido mais fundamental: o da disputa por poder e por políticas públicas. Ainda não é possível medir o efeito prático dessa mobilização sobre as intenções de voto. É provável, contudo, que ela obrigue as candidaturas a se posicionarem de forma mais clara do que o habitual.

A floresta, que por tanto tempo foi tratada como um cenário distante ou um recurso a ser explorado, exige agora um lugar na mesa onde se decidem os próximos quatro anos. A questão que fica, a trinta dias da votação, é se os candidatos escutarão a mensagem como uma demanda legítima da sociedade civil ou apenas como mais um ruído de campanha a ser administrado.

Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Dia da Amazônia marca 30 dias para eleições com campanha "Cada voto

Fonte: Agência Brasil