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Alerj repete roteiro que o Rio conhece de cor

Alexandre de Moraes confirmou o que investigadores cariocas vêm denunciando: padrão recorrente de práticas questionáveis na assembleia estadual.

Alerj repete roteiro que o Rio conhece de cor

Análise · Luciano Aragão

Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, disse o que os investigadores do Rio de Janeiro repetem em reservado há pelo menos duas décadas: a infiltração do crime organizado na Assembleia Legislativa fluminense não é ficção. A novidade não está no diagnóstico. Está em quem o assinou, e onde.

Quando um ministro do STF formaliza essa leitura, ele não está descobrindo o fogo — está escolhendo um momento para acendê-lo. O timing importa mais do que o conteúdo da frase. A Alerj acumula um histórico que dispensa romantismo: escândalos de corrupção, deputados presos, relações documentadas com milícias e facções. A casa legislativa mais importante do estado mais violento do país funcionou, por longos períodos, como câmara de compensação de interesses que a lei classifica como criminosos.

O que Moraes nomeia como infiltração é, na prática, algo mais difuso e por isso mais resistente: não é um agente externo que entrou pela janela, mas uma gramática política que se instalou pelos corredores, pelos assessores, pelas emendas, pelas indicações de cargos em municípios onde o Estado formal e o poder paralelo disputam o mesmo balcão. Chamar isso de infiltração tem a vantagem retórica de sugerir que existe um organismo saudável contaminado por um corpo estranho. A metáfora é tranquilizadora. A realidade, menos.

A sede asséptica descrita pela reportagem da Folha de S.Paulo é, nesse sentido, um dado arquitetônico com valor político: o mármore e o ar-condicionado funcionam como declaração de normalidade institucional. O prédio diz que tudo está em ordem. O histórico de seus ocupantes diz outra coisa.

Gilmar Mendes, o outro ministro citado no material, compõe o quadro sem precisar de linha própria. Dois integrantes da corte máxima orbitando o mesmo diagnóstico sobre a mesma instituição, no mesmo momento de crise, não é coincidência de agenda. É sinalização. O STF, que nos últimos anos expandiu sua presença nos assuntos do Rio — das intervenções federais às ações sobre segurança pública —, está demarcando território interpretativo antes de qualquer movimento mais concreto.

Para a Alerj, a declaração de Moraes representa menos uma ameaça imediata do que uma hipoteca política. Quando o Supremo nomeia o problema, ele também reserva para si a prerrogativa de definir a solução, o ritmo e os instrumentos. Os deputados fluminenses que hoje administram seus mandatos com um olho no plenário e outro nas suas redes de sustentação sabem disso melhor do que qualquer analista.

O Rio de Janeiro tem uma habilidade singular de transformar o inaceitável em paisagem. A crise atual pode seguir esse caminho — ou pode ser o ponto em que a paisagem começa a incomodar quem tem poder de mudar o zoneamento. Por ora, Moraes falou. O que vem depois é a pergunta que a declaração ainda não responde.

Luciano Aragão

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Moraes afirma que crime organizado infiltrou Assembleia do Rio

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL