A agenda que o céu impõe ao Planalto
Análise · Luciano Aragão O professor Adam Scaife, chefe de previsão de longo prazo do Met Office britânico, usou uma expressão que a diplomacia…
Análise · Luciano Aragão
O professor Adam Scaife, chefe de previsão de longo prazo do Met Office britânico, usou uma expressão que a diplomacia costuma evitar: “evento sem precedentes”. A previsão do serviço meteorológico do Reino Unido, uma das referências globais, projeta o El Niño em curso como o mais forte da história recente. O Planalto ouviu. Resta saber se entendeu.
O fenômeno natural, potencializado pela mudança climática, desenha um mapa de crises sob medida para o Brasil. Enquanto o Sul deve receber chuvas acima da média, o Norte e o Nordeste se preparam para uma seca que favorece queimadas. A conta é simples. De um lado, governadores pedirão recursos para reconstruir o que a água levar. Do outro, para combater o fogo e a sede. Tudo ao mesmo tempo.
As planilhas do governo federal não costumam operar com essa simultaneidade de desastres. O ciclone-bomba que atravessou o Sul e o Sudeste no início do mês, com ventos de mais de 120 km/h, foi um ensaio. O pico do fenômeno está previsto para outubro e novembro, quando o Congresso estará mais preocupado com o Orçamento do ano seguinte e as emendas que garantem a eleição municipal.
A ciência oferece os dados. O Pacífico já ferve com temperaturas mais de 2°C acima da média, e as anomalias podem chegar a 4°C. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) já alerta para o risco de insegurança alimentar aguda para dezenas de milhões de pessoas. O efeito sobre o preço dos alimentos é uma consequência lógica, com impacto direto na popularidade de qualquer governo.
A política, porém, opera em outro tempo. A previsão de que o El Niño seguirá ativo até o início de 2027 soa como ficção para quem mede o poder em ciclos de quatro anos. O que pode mudar esse cálculo não é a previsão em si, mas o fato consumado — a imagem da lavoura perdida, da cidade inundada, da floresta em chamas.
O governo de turno tem a vantagem de saber o que vem pela frente, um luxo que seus antecessores não tiveram com tamanha precisão. Pode planejar, alocar verbas, coordenar defesas civis. Ou pode esperar a fatura chegar, mais cara e com o custo político embutido. A ciência deu o aviso. A natureza não negocia prazo.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: El Niño atual deve ser o mais forte da história, diz Met Office
Fontes: g1 · BBC News Brasil