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A agenda que não sobe a rampa

Análise · Luciano Aragão A delegação brasileira se prepara para ir à Mongólia, em agosto, discutir a desertificação.

A agenda que não sobe a rampa
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Análise · Luciano Aragão

A delegação brasileira se prepara para ir à Mongólia, em agosto, discutir a desertificação. É um destino apropriado para um problema que, visto de Brasília, parece igualmente distante. No cálculo dos gabinetes, o fato de 39 milhões de pessoas viverem em áreas ameaçadas por solos que morrem tem o peso de uma nota de rodapé no Diário Oficial. Não move bancada, não aprova emenda, não decide presidência de comissão.

O número, no entanto, equivale a uma Argentina inteira vivendo sob a mesma ameaça. Entre 2000 e 2020, o país perdeu para a terra degradada uma área do tamanho de Pernambuco, Paraíba e Alagoas somados. São 170 mil quilômetros quadrados que deixaram de ser produtivos. A paisagem não vira o Saara da noite para o dia. Apenas para de reter água e sustentar vida. É um processo mais silencioso. E por isso, mais fácil de ignorar.

A lista de afetados inclui sertanejos, indígenas, quilombolas, pantaneiros e agricultores familiares. É gente que raramente tem o celular do relator do Orçamento. A coordenadora executiva da Articulação Semiárido Brasileiro, Ivi Aliana, adverte que o problema não fica contido na porteira. Afeta a comida na mesa, a água na torneira e a temperatura nas cidades. Um argumento lógico, mas que não se converte em capital político.

A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) monitora os dados. Os ministérios montam suas comitivas para os fóruns internacionais, como a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação. O ritual será cumprido. Discursos serão feitos. Depois, os participantes voltam para casa.

No Brasil, o avanço do solo estéril seguirá seu curso, atropelando comunidades que a Esplanada não enxerga no mapa. Talvez o problema só vire prioridade no dia em que a seca inviabilizar uma safra de exportação. Ou quando começar a faltar água em bairro nobre. Até lá, a pauta continuará na Mongólia.

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Desertificação ameaça 39 milhões de pessoas no Brasil

Fonte: Agência Brasil