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276 vezes por dia, o mesmo ciclo recomeça

Análise · Dra. Camila Torres Há um dado no Atlas da Violência 2024, elaborado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que não deveria…

276 vezes por dia, o mesmo ciclo recomeça
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Análise · Dra. Camila Torres

Há um dado no Atlas da Violência 2024, elaborado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que não deveria ser lido como estatística. Deveria ser lido como diagnóstico clínico. Das 186,1 mil mulheres atendidas no sistema de saúde após violência doméstica naquele ano, 66,2% relataram que aquela agressão não era a primeira. Eram 276 mulheres por dia chegando a uma unidade de saúde com um histórico, não com um episódio.

A distinção importa. Um episódio pode ser tratado. Um histórico precisa ser interrompido — e isso exige uma lógica completamente diferente de resposta.

A medicina aprendeu, a custo, que violência doméstica obedece a uma estrutura. Não é explosão aleatória; é ciclo. Começa com controle e ameaça, escala para agressão física, passa por um período de aparente distensão — o que a literatura descreve como fase de reconciliação — e retorna com intensidade maior. Cada volta do ciclo tende a ser mais grave que a anterior. O feminicídio, na maioria dos casos, não é ruptura: é desfecho previsível de uma trajetória documentada.

O que o Atlas revela, portanto, não é surpresa científica. É a confirmação quantitativa de algo que qualquer médica de pronto-socorro ou UBS reconhece: quando a mulher chega, ela raramente está chegando pela primeira vez — ao sistema, à dor, ao medo. Está chegando, como afirma Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em uma fase de escalada. O serviço de saúde, nesse momento, é frequentemente o primeiro ponto institucional que ela encontra — antes da delegacia, antes da Defensoria, antes de qualquer rede de proteção formal.

Isso coloca sobre as equipes de saúde uma responsabilidade que vai além do curativo: identificar o padrão, registrar, acionar protocolos. E coloca sobre o sistema uma pergunta que os números não respondem sozinhos: o que aconteceu nas vezes anteriores?

O Atlas traz ainda uma assimetria que merece atenção. Os assassinatos de mulheres fora do ambiente doméstico caíram ao longo da última década. Os que ocorrem dentro de casa permaneceram praticamente estáveis. Ao todo, 3.642 mulheres foram mortas em 2024 — o menor número desde 2014, o que poderia ser lido como progresso. Mas o recorte por local revela que a queda se concentra fora do lar. Dentro dele, o número não cede. A violência pública recuou; a privada, não.

Essa distinção tem implicações de política pública que vão além da segurança. Ela aponta para a especificidade do vínculo afetivo como fator de risco. A violência doméstica é mais difícil de interromper precisamente porque acontece dentro de relações em que há amor, dependência econômica, filhos compartilhados — camadas que tornam a saída não apenas perigosa, mas emocionalmente contraditória. Uma mulher que registra boletins de ocorrência, reúne laudos psicológicos, percorre Defensorias e centros de acolhimento ao longo de anos — como a que aparece no relato da Folha, sem nome por razões de segurança — não está sendo omissa. Está navegando um labirinto institucional enquanto o risco continua dentro de casa.

Os 276 casos diários de reincidência registrados em 2024 não descrevem falha individual. Descrevem a distância entre o ciclo que a ciência já mapeou e a capacidade real do Estado de interrompê-lo antes que ele complete mais uma volta.

Camila Torres é médica e epidemiologista, chefe de Saúde da Xaplin.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: 2 em cada 3 mulheres com violência doméstica já sofreram agressões

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.